Cientistas da Califórnia, nos Estados Unidos, realizaram um avanço significativo ao transplantar células nervosas humanas em camundongos geneticamente modificados. O objetivo da pesquisa é desenvolver um modelo mais próximo do cérebro humano para investigar doenças como demência, esquizofrenia e paralisia cerebral. O estudo foi publicado na revista científica Nature em 16 de setembro.
Os camundongos foram geneticamente alterados para impedir o desenvolvimento do córtex cerebral, a camada externa do cérebro essencial para funções como movimento, tomada de decisões e atenção. Além disso, esses roedores também não apresentaram o hipocampo, uma região crucial para o aprendizado e a memória. Quando os animais tinham apenas dois dias de vida, os pesquisadores injetaram organoides cerebrais humanos nas áreas vazias do cérebro, cada um contendo cerca de 100 mil células humanas.
Após três meses do transplante, constatou-se que o tecido humano ocupava mais de 90% da região correspondente ao córtex cerebral dos camundongos. As células humanas se integraram à rede neural dos animais, e os testes comportamentais indicaram que os camundongos que receberam o tecido humano apresentaram desempenho semelhante ao grupo de controle. Em contraste, aqueles que tiveram partes do cérebro removidas sem a adição dos organoides mostraram problemas de memória e diferenças na marcha em relação aos camundongos normais.
A pesquisa com organoides cerebrais também levanta importantes questões éticas, especialmente sobre a possibilidade de que tecidos humanos possam desenvolver níveis de consciência ou sensação de dor. Para abordar essas preocupações, a equipe, liderada por Sergiu Pașca, submeteu o trabalho a uma revisão rigorosa por painéis independentes de bioeticistas.
Os pesquisadores projetaram os experimentos de maneira que os organoides fossem inseridos em cérebros de camundongos já desenvolvidos, evitando a integração do tecido humano desde os primeiros estágios de formação. A pesquisadora Madeline Lancaster, do Laboratório de Biologia Molecular do Conselho de Pesquisa Médica da Inglaterra, que não fez parte do estudo, destacou que a equipe demonstrou cuidado ao considerar as implicações éticas de sua pesquisa.