Uma nova pesquisa propõe que os Homo floresiensis, popularmente chamados de "hobbits" devido à sua estatura baixa, podem ter sido necrófagos ao invés de caçadores habilidosos, desafiando a visão que previa sua capacidade de abater grandes animais. O estudo sugere que esses hominídeos, que possuíam um cérebro ligeiramente maior que o de um chimpanzé, não eram tão desenvolvidos quanto se pensava anteriormente.
Os fósseis do Homo floresiensis foram encontrados em 2003 na caverna de Liang Bua, localizada na ilha de Flores, na Indonésia. Essa espécie, que media cerca de 1 metro de altura e tinha um crânio do tamanho de uma toranja, levou à descoberta de artefatos de pedra e ossos de Stegodon florensis insularis, um parente extinto dos elefantes que se assemelhava a um bisão. Inicialmente, acreditava-se que esses hominídeos utilizavam ferramentas para caçar grandes animais, além de dominar o uso do fogo, evidenciado pelos ossos queimados de animais menores.
O comportamento de caça e o uso do fogo eram considerados características evolutivas essenciais associadas a hominídeos com cérebros maiores, como os neandertais e o Homo sapiens. Essa conexão levou alguns pesquisadores a cogitar que os hobbits eram parentes próximos do Homo erectus. A Dra. Elizabeth Grace Veatch, paleoantropóloga que investiga a evolução da dieta humana e a interação dos primeiros humanos com os animais, decidiu investigar mais sobre a sobrevivência do Homo floresiensis em uma ilha isolada entre 190.000 e 50.000 anos atrás.
Veatch e sua equipe realizaram uma análise detalhada dos ossos de estegodonte encontrados em Flores, focando no que ocorreu com esses ossos após a morte dos estegodontes. A pesquisadora queria determinar se o Homo floresiensis era realmente o caçador que se acreditava. O estudo sugere que a espécie pode ter uma ancestralidade que se separou do gênero Homo antes do desenvolvimento de adaptações comportamentais mais avançadas observadas em espécies posteriores.
Os resultados reforçam a teoria de que o Homo floresiensis não é uma forma anã do Homo erectus, mas sim um descendente de uma espécie mais primitiva, semelhante ao Homo habilis ou ao Australopithecus, que chegou à ilha há mais de 1 milhão de anos. O Dr. Chris Stringer, especialista em origens humanas no Museu de História Natural de Londres, afirma que o Homo habilis é uma das espécies mais antigas conhecidas do gênero Homo. As espécies de Australopithecus, como o famoso fóssil de Lucy, apresentavam um bipedalismo, mas possuíam cérebros relativamente pequenos, comparáveis ao tamanho dos cérebros de macacos.
Por fim, Stringer destaca que essa nova pesquisa reforça uma visão minoritária de que o Homo floresiensis pode não pertencer ao gênero Homo e que seria necessário um novo nome para a espécie, o que não é uma tarefa simples sem um conhecimento mais aprofundado sobre sua ancestralidade.