Dados recentes mostram um aumento expressivo de câncer em jovens, transtornos mentais, doenças autoimunes e autismo. Especialistas discutem os fatores que podem estar por trás dessa mudança no perfil de saúde da população.
Nas últimas décadas, médicos, pesquisadores e gestores de saúde têm observado um fenômeno preocupante: o crescimento significativo das doenças crônicas em praticamente todos os países. Condições como câncer, transtornos mentais, doenças autoimunes e distúrbios neurológicos estão sendo diagnosticadas com cada vez mais frequência — e, cada vez mais, em pessoas jovens.
A questão central é: o que está impulsionando esse aumento?
Diversos dados corroboram a gravidade desse cenário:
1. Crise de saúde mental
Segundo dados do Ministério da Previdência Social, os afastamentos do trabalho por transtornos mentais, como depressão e ansiedade, dispararam. De uma média anual de cerca de 200 mil afastamentos até 2019, o número cresceu significativamente no período pós-pandemia: foram 281 mil em 2023, 472.328 em 2024 e 546.254 em 2025 — um aumento aproximado de 173%.
Vivemos, portanto, uma crescente crise de saúde mental no Brasil.
2. Cânceres de início precoce
Estudos internacionais revelam um aumento global na incidência de diversos tipos de câncer — como colorretal, de mama e de pâncreas — em adultos com menos de 50 anos.
Uma grande análise publicada na revista BMJ Oncology em 2023 apontou um crescimento significativo nos chamados “cânceres de início precoce”.
3. Avanço das doenças neurodegenerativas
Embora o envelhecimento populacional seja um fator relevante, o número de pessoas com demência, como a doença de Alzheimer, pode triplicar até 2050, segundo a OMS.
No Brasil, houve aumento de 78% nas internações hospitalares por essas doenças — de 5.860 em 2020 para 10.433 em 2024 —, o que reforça a importância da prevenção precoce, já que o processo de demência pode começar até 18 anos antes do diagnóstico.
4. Aumento das doenças autoimunes
Doenças nas quais o sistema imunológico ataca o próprio organismo — como tireoidite, esclerose múltipla, nefropatia por IgA e doença celíaca — vêm sendo diagnosticadas com crescimento anual entre 3% e 9% nas últimas décadas.
No Brasil, os atendimentos por lúpus cresceram 28,58%, segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia.
5. Crescimento do autismo (TEA)
Nos Estados Unidos, dados do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) mostram que a prevalência do autismo passou de 1 caso a cada 150 crianças, em 2000, para 1 a cada 31 crianças em 2023.
Esse aumento envolve maior capacidade de diagnóstico, mas também levanta a necessidade de investigar mudanças ambientais, biológicas e sociais.
As possíveis causas e os mecanismos biológicos
Pesquisadores apontam um conjunto de fatores interligados que podem estar na raiz dessa epidemia:
Estilo de vida: dietas ricas em alimentos ultraprocessados, sedentarismo e alterações no padrão de sono
Fatores ambientais e sociais: altos níveis de estresse crônico e exposição crescente a toxinas ambientais
Saúde intestinal: alterações na microbiota, fator essencial na regulação metabólica e imunológica
A interação desses elementos desencadeia processos biológicos como inflamação crônica, estresse oxidativo e disfunções mitocondriais — mecanismos hoje reconhecidos como centrais no desenvolvimento de diversas doenças modernas.
O desafio para a medicina do século XXI
À medida que as doenças crônicas aumentam, cresce também a pressão sobre os sistemas de saúde em todo o mundo. Países desenvolvidos já enfrentam desafios significativos, com custos em constante elevação. No Brasil, esse impacto também é evidente, tanto no sistema público quanto na saúde suplementar.
Essa realidade levanta uma reflexão inevitável: estamos concentrando nossos esforços apenas nas consequências, enquanto as causas continuam se acumulando silenciosamente?
Especialistas defendem a necessidade de uma transformação na prática médica, ampliando o foco para além do tratamento da doença já instalada. É fundamental compreender e atuar sobre os processos que levam ao adoecimento.
Isso inclui olhar com mais atenção para fatores como alimentação, estilo de vida, equilíbrio metabólico, saúde mental, ambiente e prevenção.
O grande desafio está em equilibrar o avanço das terapias de alta tecnologia com uma compreensão mais profunda sobre como preservar e recuperar a saúde ao longo da vida.
Nunca tivemos tanta tecnologia médica — e, ao mesmo tempo, tantas pessoas vivendo com doenças crônicas.
Em um mundo onde o ritmo de adoecimento se acelera, investir em saúde preventiva e integral deixa de ser apenas uma escolha individual e passa a ser uma necessidade coletiva urgente.
Dr. João Ricardo Yamasita – CRM 16063-PR
Medicina de Família e Comunidade – RQE 33509
Membro da American Society of Regenerative Medicine e professor de pós-graduações