Francisco, o Novo Júpiter?

Em um mundo acelerado por algoritmos e efemeridades digitais, onde verdades se dissolvem em feeds infinitos, a figura do papa permanece um farol anacrônico, porém perene. Cada pontífice não é mero sucessor de Pedro; é um espelho vivo da era que o elege. Habemus Papam – proclamam os cardeais do balcão de São Pedro, ecoando o latim que une sagrado e profano, lembrando que “papa” deriva de pater, pai, guardião da família humana. E se mergulhássemos mais fundo, entrelaçando essa linhagem apostólica com a mitologia romana, para extrair lições que transcendam o Vaticano e iluminem nosso caos contemporâneo?


Considere Júpiter, o pater deorum da Roma antiga, soberano dos céus que arremessava raios contra o caos primordial. Não é o papa um Júpiter moderno, lançando encíclicas como Laudato Si’ (Francisco) contra a devastação climática, ou Veritatis Splendor (João Paulo II) contra o relativismo ético que devora certezas? Na mitologia, Júpiter destronou Saturno, o deus devorador de filhos que engolia o futuro para preservar o poder. Bento XVI, ao renunciar em 2013, quebrou o tabu da infalibilidade temporal, devolvendo à Igreja a humildade latina de servus servorum Dei – servo dos servos de Deus. Sua renúncia ecoa Cronos/Saturno: o reconhecimento de que perpetuar o poder a qualquer custo é devorar o porvir.
Mas por que insistir no latim? Essa língua “morta” é, paradoxalmente, a lingua franca da eternidade, ferramenta viva para decifrar o presente. Vox populi, vox Dei – a voz do povo é a voz de Deus –, máxima atribuída a Alcuíno, ressoa nos papados que capturam o zeitgeist. Pio XII, na Guerra Fria, proclamou a Assunção de Maria, elevando o feminino em um mundo patriarcal, como Vênus emergindo das águas para equilibrar o panteão romano. Francisco, com Fratelli Tutti, invoca fraternidade universal contra o individualismo pandêmico, remetendo a Rômulo e Remo: irmãos amamentados pela loba capitolina, fundadores de Roma a partir da marginalidade, provando que a verdadeira cidade nasce da inclusão, não da exclusão.


O título mais antigo e revelador é Pontifex Maximus, apropriado dos imperadores por Leão I no século V. Pontifex = construtor de pontes (pons + facere). Em tempos de muros digitais, polarizações e algoritmos que isolam, o pontífice ergue viadutos entre fé e ciência, tradição e futuro. João XXIII abriu janelas ao mundo no Concílio Vaticano II, como Jano, deus bifronte das portas e transições romanas, olhando simultaneamente para ontem e amanhã. Sua Pacem in Terris (1963) antecipou a globalização ao pregar paz em latim que ecoa Cícero: Salus populi suprema lex esto – o bem do povo seja a lei suprema.
A mitologia, porém, adverte contra a hybris. Nero incendiou Roma para se divinizar; Alexandre VI, o Bórgia, manchou o sólio com nepotismo, evocando Baco em orgias mundanas. A lição é cristalina: o poder papal, como o Olimpo, exige virtude. Francisco, com simplicidade franciscana, contrasta com esses excessos, lembrando Cincinato – o lavrador romano que largou o arado para salvar a república e voltou ao campo. Em plena crise climática e migrações forçadas, ele propõe ecologia integral, fundindo Laudato Si’ ao mito de Gaia, a Terra-mãe violada pelos Titãs industriais.


E nós, leitores de 2026? Cada papa nos interpela: qual ponte construiremos? No Brasil fragmentado por desigualdades abissais, o latim sussurra e pluribus unum – de muitos, um –, lema romano adaptado que nos convida à unidade. A mitologia ensina que Héracles superou doze labores coletivos; talvez nosso labor seja transformar polarização em diálogo, egoísmo em solidariedade. Surpreende que, com a IA moldando realidades virtuais, o papa ainda fale de alma imortal? Exatamente por isso: ele é o contraponto ao efêmero, o Júpiter que nos força a perguntar: seremos devoradores como Saturno, ou construtores como o Pontifex?


Os papas não são relíquias do passado; são mitos vivos, tecendo latim e lendas para guiar o caos contemporâneo. Que não admiremos apenas erudição passageira, mas a sabedoria eterna que nos une além de tempo e fronteiras. Ad maiorem Dei gloriam – para a maior glória de Deus, e, inseparavelmente, da humanidade.

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