Ferramentas digitais já auxiliam médicos em diferentes etapas do atendimento, mas a relação com os pacientes continua exigindo preparo profissional
Desde o ingresso na faculdade de medicina, uma nova questão vem ganhando espaço na formação dos profissionais da saúde: o uso da inteligência artificial (IA), que já participa de atividades que vão da análise de exames à organização de informações clínicas. Com a incorporação dessas ferramentas à rotina médica, a formação enfrenta o desafio de preparar profissionais capazes de interpretar os resultados da tecnologia sem perder de vista as necessidades de cada paciente.
Em levantamento realizado em 2024, a Associação Médica Americana (AMA, na sigla em inglês) identificou que 81% dos médicos entrevistados utilizavam ferramentas de IA na prática profissional. A pesquisa, que ouviu quase 1.700 profissionais, apontou aplicações como a síntese de pesquisas, a produção de documentos e o apoio à tomada de decisões clínicas.
Na análise de exames, algoritmos podem reconhecer padrões e sinalizar alterações para avaliação médica. Outros sistemas também auxiliam na organização de prontuários e na identificação de informações relevantes para o acompanhamento dos pacientes.
Esses recursos, porém, exigem avaliação crítica. A Organização Mundial da Saúde (OMS), na publicação Ethics and Governance of Artificial Intelligence for Health, de 2021, destaca questões éticas relacionadas à autonomia humana, à segurança e à responsabilização pelo uso dessas ferramentas.
O que a IA ainda não substitui na área da saúde?
O atendimento médico também depende de informações que não aparecem necessariamente em exames. O medo de um diagnóstico, as dificuldades para seguir uma prescrição e as condições familiares podem influenciar a maneira como uma pessoa enfrenta o tratamento.
Por isso, a escuta e a comunicação têm papel importante na relação entre médicos e pacientes. Explicar um diagnóstico em linguagem compreensível, abrir espaço para perguntas e considerar as preferências de quem recebe o atendimento ajudam a construir uma participação mais ativa nas decisões clínicas.
No relatório Compassion and Primary Health Care, publicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2024, o cuidado compassivo é relacionado à qualidade da assistência e à segurança dos pacientes. O documento também aborda sua relação com a efetividade dos tratamentos.
A humanização, dessa maneira, exige preparo para reconhecer as necessidades individuais e adaptar a comunicação a cada situação. Mesmo quando a tecnologia contribui para agilizar tarefas, a interação e o olhar atento e acolhedor com o paciente continuam sendo parte do trabalho clínico.
Como equilibrar tecnologia e formação humanizada desde a faculdade de medicina
Uma das possibilidades de uso da IA é reduzir o tempo dedicado a tarefas repetitivas, como organizar registros e resumir informações clínicas. Esse apoio pode abrir espaço para que os profissionais se concentrem na avaliação dos casos e na conversa com os pacientes, desde que os ganhos de eficiência sejam acompanhados de mudanças na organização do atendimento.
Essa preparação começa na faculdade de medicina, onde o aprendizado sobre ferramentas digitais pode ser associado a atividades de comunicação clínica, discussão de casos e simulações de consultas. O objetivo é desenvolver a capacidade de questionar resultados automatizados e tomar decisões considerando as particularidades de cada paciente.
Na formação e na prática profissional, algumas medidas ajudam a integrar tecnologia e cuidado humanizado:
- Usar a IA como apoio, não como substituta da avaliação clínica: ferramentas digitais podem organizar prontuários, resumir informações e auxiliar na análise de exames. A interpretação dos resultados, porém, deve considerar o histórico e as condições de saúde de cada paciente.
- Considerar a realidade de cada pessoa: condições financeiras, rotina de trabalho, acesso ao transporte, escolaridade e rede de apoio podem interferir na possibilidade de seguir um tratamento. Cabe ao profissional compreender essas circunstâncias e avaliar alternativas compatíveis com as necessidades do paciente.
- Manter a escuta e o diálogo durante a consulta: abrir espaço para dúvidas, explicar diagnósticos em linguagem compreensível e conversar sobre as opções terapêuticas ajuda o paciente a participar das decisões sobre a própria saúde.
- Reconhecer diferenças sociais e culturais: pacientes têm experiências, valores e necessidades distintas. Um atendimento adequado exige disposição para ouvir essas diferenças, evitar julgamentos e adaptar a comunicação sem pressupor que todas as pessoas enfrentam as mesmas dificuldades.
- Questionar recomendações automatizadas: os resultados da IA precisam ser confrontados com evidências científicas e informações clínicas. Dados incompletos ou pouco representativos podem levar a recomendações inadequadas para determinados grupos.
- Proteger a privacidade e manter a formação atualizada: o uso de dados de saúde exige atenção à confidencialidade, enquanto o aprendizado contínuo permite acompanhar as mudanças tecnológicas e reconhecer os limites dessas ferramentas.
A formação também precisa abordar os vieses algorítmicos, já que dados incompletos ou pouco representativos podem comprometer os resultados de um sistema, fazendo com que a atualização profissional permaneça necessária diante das mudanças nas ferramentas e nas evidências científicas.
O desafio da medicina, então, é incorporar a tecnologia sem reduzir o atendimento à análise de dados. Para isso, a formação deve preparar profissionais que saibam utilizar a IA como apoio, mantendo a responsabilidade pelas decisões clínicas e a atenção à pessoa que está sendo cuidada naquele momento.