*Por Professor Sampaio
O debate sobre inclusão escolar avançou no discurso, mas ainda patina na prática. O número de diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) cresce, as salas de aula estão mais diversas e os professores mais pressionados, mas seguimos insistindo em soluções superficiais. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o TEA afeta cerca de 1 em cada 100 crianças no mundo. O TDAH atinge aproximadamente 5% da população infantil global. Nos Estados Unidos, dados do Centers for Disease Control and Prevention indicam que 1 em cada 36 crianças foi diagnosticada com autismo. No Brasil, embora ainda faltem levantamentos nacionais consolidados e atualizados, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística já identificou crescimento no número de estudantes que necessitam de atendimento educacional especializado.
Esses números não são abstratos. Eles estão sentados nas carteiras das escolas. Estão nas famílias que relatam crises sensoriais frequentes. Estão nos professores que não sabem como manter a atenção de um aluno que se dispersa a cada estímulo externo. E aqui está o ponto central: não há aprendizagem possível sem regulação emocional. Muitas vezes, comportamentos como agitação, impulsividade, isolamento ou explosões emocionais são tratados como indisciplina. Mas, em grande parte dos casos envolvendo TEA e TDAH, o que existe é desorganização interna diante de excesso de estímulos, dificuldade de previsibilidade e sobrecarga sensorial. Antes de exigir desempenho acadêmico, é preciso organizar o cérebro. É nesse contexto que a arte precisa deixar de ser vista como atividade complementar e passar a ser compreendida como ferramenta pedagógica estruturada.
Quando utilizamos música com ritmo constante e repetição planejada, por exemplo, criamos um padrão previsível que auxilia na organização neural. Crianças com TDAH, que apresentam dificuldade de atenção sustentada em aulas exclusivamente expositivas, frequentemente conseguem manter foco por mais tempo quando o conteúdo é mediado por ritmo, batidas marcadas ou sequências sonoras estruturadas.
Nas artes visuais, a divisão clara em etapas, como planejamento, execução e finalização, oferece previsibilidade. Para uma criança com TEA, saber exatamente o que vai acontecer reduz ansiedade antecipatória. Um simples roteiro visual do processo pode diminuir significativamente episódios de desregulação. O teatro pedagógico, quando conduzido com roteiro definido e turnos organizados de fala, permite ensaiar habilidades sociais. Em vez de exigir interação espontânea, que pode gerar insegurança e sobrecarga, o ambiente estruturado oferece segurança para experimentar comunicação, expressão facial e contato visual de forma gradual.
Em todos esses exemplos, a palavra-chave é estrutura. Arte improvisada pode ser recreativa. Arte estruturada é intervenção pedagógica. Infelizmente, muitas escolas ainda restringem a inclusão à adaptação de avaliações ou à presença de um acompanhante terapêutico. São medidas importantes, mas insuficientes. Se o aluno não está regulado emocionalmente, nenhuma adaptação curricular será plenamente eficaz. Também é preciso romper com a ideia de que a arte é um recurso apenas “sensível” ou “expressivo”. Neurociência e educação já demonstram que ritmo, repetição e previsibilidade contribuem para organização cognitiva, memória e atenção. A arte, quando planejada, atua diretamente nesses pilares. Ignorar esse potencial é manter a inclusão no campo do discurso.
Estamos diante de um cenário em que diagnósticos são cada vez mais frequentes, famílias buscam respostas e professores pedem formação prática. A pergunta que precisamos fazer não é se devemos incluir. A pergunta é como incluir de forma eficaz. Incluir não é apenas permitir presença física na sala de aula. É garantir condições reais de aprendizagem. E aprendizagem começa pela regulação. Se quisermos avançar para uma inclusão consistente, precisamos incorporar metodologias que organizem emoção antes de cobrar desempenho. A arte, aplicada com método e intencionalidade pedagógica, é uma das ferramentas mais acessíveis e potentes para cumprir esse papel.
Não se trata de transformar a escola em ateliê. Trata-se de reconhecer que, para muitos alunos neurodivergentes, o caminho para o conteúdo passa primeiro pela organização interna. Inclusão não é concessão. É estratégia. E estratégia exige método.
*Nilson Sampaio é artista plástico e arte-educador, especialista em inclusão de pessoas com TEA e TDAH. Criador do Método PAE (Paciência, Amor e Empatia), utiliza a arte como ferramenta estruturada de autorregulação e aprendizagem. É formado em Artes Visuais e possui especialização em Educação Especial e Inclusão.