O maior perigo do “Mounjaro” não é o que você pensa
Enquanto o país teme a pancreatite, o que mais tenho visto no consultório são casos graves de prisão de ventre — alguns terminando no pronto-socorro. Um alerta, e um protocolo, de quem acompanha esses pacientes todos os dias.
Por Dr. Lesme Dariel — CRM 27440
Toda vez que se fala nos riscos da tirzepatida — a substância dos remédios que ficaram famosos como “Mounjaro” —, a conversa gira em torno das mesmas palavras: pancreatite, tireoide, vesícula. São preocupações legítimas, que estão na bula e merecem atenção médica. Mas, se você me perguntar qual é o problema que mais tenho visto encher a minha agenda e, em alguns casos, mandar gente para o hospital, a resposta vai te surpreender: é prisão de ventre. Constipação intestinal. Aquilo que muita gente trata como piada, e que na prática está virando um problema sério e repetido entre quem usa a caneta.
Não estou brincando. Estou escrevendo isto porque a cena se repete semana após semana no consultório, e porque quase ninguém está avisando os pacientes com a clareza necessária. A caneta emagrece, sim. Ajuda muita gente que sofria com obesidade e diabetes, sim. Mas ela não é um passeio no parque — e o intestino é a primeira parte do corpo a sentir isso.
Por que quase ninguém fala disso
Existe uma lógica cruel por trás do silêncio. Prisão de ventre não vende manchete. Pancreatite assusta, tem nome difícil, dá medo. Já a constipação parece coisa pequena, quase constrangedora de comentar. O resultado é que a pessoa começa a usar a medicação, para de evacuar com a frequência de antes, acha que “é normal do remédio” e não conta para ninguém. Passa uma semana, duas, e quando procura ajuda o quadro já está instalado e doloroso.
Some a isso o modo como a caneta tem sido usada no Brasil. Desde 2023 a tirzepatida foi aprovada por aqui, e a procura explodiu. Muita gente conseguiu a medicação sem acompanhamento próximo, aumentou a dose por conta própria atrás de resultado mais rápido e não recebeu a orientação mais básica de todas: o que fazer para o intestino continuar funcionando. É essa combinação — remédio potente e orientação de menos — que transforma um efeito colateral comum em um problema de verdade.
Não à toa, a própria Anvisa apertou o controle. Desde 2025, a receita desses medicamentos precisa ser retida na farmácia, com prazo de validade limitado, justamente para conter o uso sem acompanhamento e o aumento indevido de dose. É um reconhecimento oficial de que a caneta é coisa séria, que exige um médico por perto — e não um item que se compra e se usa como quem toma um suplemento qualquer.
O que a caneta faz com o seu intestino
Para entender o perigo, é preciso entender o mecanismo, e ele é simples. A tirzepatida age em dois hormônios que regulam o apetite e a digestão. Um dos efeitos centrais da medicação é desacelerar o esvaziamento do estômago e reduzir a velocidade do trânsito intestinal. Em bom português: a comida anda mais devagar por dentro de você. É justamente isso que dá a sensação de saciedade que faz emagrecer — você se sente cheio por mais tempo e come menos.
O problema é que essa mesma lentidão, no intestino grosso, significa fezes que ficam paradas por mais tempo. Quanto mais tempo as fezes ficam ali, mais água o corpo reabsorve delas, e mais ressecadas e endurecidas elas ficam. É a receita perfeita para a constipação. Não é um azar: é uma consequência esperada da forma como o remédio funciona. Estudos mostram que a prisão de ventre aparece em uma parcela relevante dos usuários — dependendo da apresentação, algo entre 6% e 17% das pessoas relatam o sintoma. E esse número, na minha experiência, é subestimado, porque muita gente nem reporta.
Quem precisa redobrar a atenção
Nem todo mundo corre o mesmo risco, e vale saber em qual grupo você está. Preocupo-me especialmente com três perfis. O primeiro é o dos idosos, cujo intestino já tende a ser mais lento e que se desidratam com mais facilidade. O segundo é o de quem já convivia com prisão de ventre, hemorroidas ou fissuras antes de começar a medicação — nesses casos, a caneta joga gasolina numa fogueira que já existia. E o terceiro é o de quem aumenta a dose rapidamente, por conta própria: quase todos os quadros mais dramáticos que atendi tinham um aumento recente de dose na história do paciente. Se você se encaixa em algum desses perfis, converse com seu médico antes mesmo de começar, e não depois que o problema apareceu.
Quando a prisão de ventre vira emergência
Aqui está a parte que precisa ser dita sem rodeios, porque é onde mora o perigo. Constipação não tratada não fica parada: ela evolui. E a escalada que eu tenho visto segue quase sempre o mesmo caminho.
Primeiro vem o esforço. A pessoa passa a fazer força excessiva para evacuar, com fezes duras e ressecadas. Esse esforço repetido machuca. Surgem as fissuras anais — pequenos cortes que doem intensamente e sangram. Quem já tem hemorroidas vê o quadro piorar de forma acelerada, porque a pressão do esforço inflama tudo. A dor faz a pessoa evitar ir ao banheiro, o que piora ainda mais a retenção. Um ciclo vicioso.
Quando isso se arrasta, as fezes endurecidas podem formar um bloco compactado que o corpo simplesmente não consegue expelir sozinho — o chamado fecaloma, ou impactação fecal. E é aí que eu vejo pacientes indo parar no pronto-socorro. Já acompanhei casos que precisaram de enema (lavagem intestinal) no hospital e, em situações mais graves, de extração manual das fezes por um profissional. Não é agradável de ler, e garanto que é muito menos agradável de viver.
No extremo dessa linha existe um risco raro, porém real e descrito na literatura médica: a obstrução intestinal. Há relatos de casos publicados de pacientes que desenvolveram obstrução do intestino durante o uso da medicação, muitas vezes logo após um aumento de dose. É incomum — não quero causar pânico —, mas é uma emergência médica quando acontece, e todo usuário deveria saber reconhecer os sinais.
Para ilustrar, descrevo um quadro típico, desses que se repetem quase iguais. A pessoa começa a caneta animada com os primeiros quilos que perde. Nas primeiras semanas percebe que “está mais presa”, mas acha normal, “é do remédio”. Não bebe água porque não sente sede, não come fibra porque quase não come nada. Na terceira ou quarta semana, já são cinco, seis dias sem evacuar. Vêm o desconforto, o esforço, o sangramento. Quando finalmente procura ajuda, o quadro já está instalado, e a pessoa sai do consultório encaminhada para um procedimento que poderia ter sido evitado com duas orientações simples lá no início. Não é a exceção. É o padrão que venho vendo se repetir.
O erro que quase todo mundo comete
Se eu pudesse resumir a causa da maioria dos casos graves que atendo em duas palavras, seriam estas: fibra e água. Ou melhor, a falta das duas.
Repare no que a caneta faz: ela tira a sua fome. Ótimo para emagrecer, péssimo para o intestino, porque a pessoa que come pouco também come pouca fibra. A fibra é exatamente o que dá volume e maciez às fezes e estimula o intestino a se mover. Sem ela, o trânsito já lento pela medicação praticamente para. E como a fome sumiu, a sede também costuma sumir junto — as pessoas simplesmente esquecem de beber água ao longo do dia. Fezes sem fibra e sem água viram pedra.
E aqui vai um alerta que muita gente não sabe, e que faz diferença: tomar fibra sem beber água na quantidade certa pode piorar a situação em vez de melhorar. A fibra precisa de líquido para funcionar. Jogar um suplemento de fibra num intestino desidratado é como jogar cimento seco numa tubulação. Por isso protocolo de fibra e protocolo de água andam sempre juntos, nunca separados.
O protocolo que passo para meus pacientes
Diante disso, criei uma rotina simples que oriento a quem usa a medicação, sempre de forma individualizada e com acompanhamento. Não é milagre; é prevenção básica, e funciona quando é feita desde o começo, e não só quando o problema já apareceu.
Água em primeiro lugar. Estabeleço uma meta diária de líquidos e peço que a pessoa a cumpra mesmo sem sentir sede, distribuída ao longo do dia. A sede deixou de ser um bom termômetro para quem está com o apetite bloqueado.
Fibra de forma gradual e com líquido. Aumento a ingestão de fibras — de alimentos e, quando necessário, de suplemento — de maneira progressiva e sempre acompanhada de água. Começar devagar evita gases e desconforto, e dá tempo de o intestino se adaptar.
Movimento. Caminhar, se mexer, ativa o intestino. Uma vida parada só piora o trânsito lento provocado pela medicação.
Dose com paciência. Boa parte dos casos graves vem de aumento rápido de dose atrás de resultado. Subir a dose de forma gradual, respeitando o corpo, reduz muito o risco intestinal.
Acompanhamento de verdade. Quando a mudança de hábito não basta, existem laxantes seguros que um médico pode indicar — e monitorar. Isso não se resolve com receita de vizinho nem com fórmula da internet.
Os sinais de alerta — quando correr para o hospital
Guarde estes sinais. Se você usa a medicação e apresentar qualquer um deles, procure atendimento médico sem esperar: vários dias sem evacuar de forma alguma; barriga muito distendida, inchada e dura; dor abdominal forte e persistente; náusea ou vômito associados à parada do funcionamento intestinal; ausência total de eliminação de gases. Esse conjunto pode indicar uma impactação grave ou uma obstrução, e não é hora de tentar resolver em casa.
Sangramento ao evacuar, dor intensa na região anal e piora de hemorroidas também merecem avaliação — não são “normais”, ainda que sejam comuns. Quanto antes se trata, mais simples é a solução.
A caneta não é vilã — mas também não é um passeio no parque
Faço questão de terminar deixando claro: não estou aqui para demonizar a tirzepatida. Ela é uma das ferramentas mais importantes que a medicina ganhou para tratar obesidade e diabetes, e mudou a vida de muitos dos meus pacientes para melhor. O problema quase nunca é a molécula. O problema é o uso sem orientação, sem preparo e sem acompanhamento — como se bastasse aplicar e esperar emagrecer.
Emagrecer com a caneta não é só ver o número da balança cair. É cuidar do corpo inteiro no processo, e o intestino é parte disso. Use com receita, com médico, com água, com fibra e com paciência. Feito assim, os riscos que descrevi aqui são, na imensa maioria, evitáveis.
Escrevo este alerta porque prefiro que você leia sobre isso no jornal, hoje, a descobrir da pior forma, no pronto-socorro, na próxima semana. O Mounjaro não é um passeio no parque. Mas, com informação e acompanhamento, também não precisa virar um pesadelo.
BOXE 1 — Protocolo para proteger o intestino
Beba água por meta, não por sede: distribua o líquido ao longo do dia, mesmo sem vontade.
Aumente a fibra aos poucos e sempre acompanhada de água — nunca fibra no intestino seco.
Movimente-se todos os dias; uma simples caminhada já estimula o intestino.
Suba a dose com calma, respeitando o corpo, e nunca por conta própria.
Se o hábito não resolver, procure o médico: existem laxantes seguros para uso orientado.
BOXE 2 — Sinais de alerta: procure o pronto-socorro
Vários dias sem evacuar de forma alguma.
Barriga muito distendida, inchada e dura.
Dor abdominal forte e que não passa.
Náusea ou vômito com o intestino parado.
Ausência total de eliminação de gases.
Esse conjunto de sinais pode indicar impactação grave ou obstrução intestinal — não tente resolver em casa.
Dr. Lesme Dariel é médico (CRM 27440) e atua no acompanhamento de pacientes em tratamento de emagrecimento com análogos de GLP-1. Este texto tem caráter educativo e informativo e não substitui a consulta médica individual.
O Dr. Lesme Dariel Masso Cisneros (CRM 27440) é médico formado em 2008 pelo Instituto Superior de Ciências Médicas de Santiago de Cuba, com especialização em Medicina Geral Integral — equivalente, no Brasil, à Medicina de Família e Comunidade. Há 18 anos na medicina, construiu sua trajetória na atenção primária em contextos de grande vulnerabilidade social: em 2011 integrou o programa Barrio Adentro, na Venezuela, onde atuou por dois anos, e em 2014 veio ao Brasil pelo programa Mais Médicos, atendendo em Brasília. Teve seu diploma revalidado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 2019 e, hoje, é diretor clínico do Hospital IMAS, em Guarujá do Sul (SC). Cursa três pós-graduações — em Endocrinologia, Medicina Integrativa e Medicina do Esporte — e participa anualmente de congressos e eventos médicos, nacionais e internacionais. Atualmente dedica-se ao acompanhamento de pacientes em tratamento de emagrecimento e ao uso seguro da tirzepatida, tema em que se tornou uma voz de referência.
Atenciosamente Dr. Lesme Dariel
