Entenda como os mercados de previsão se diferenciam das apostas e contribuem para o desenvolvimento econômico
Mercados de previsão são confundidos com apostas, mas são ativos que transformam expectativas em informações essenciais para a economia da informação.
O Brasil enfrenta um desafio significativo com o volume expressivo de capital direcionado a jogos de azar, que não geram dados úteis nem externalidades econômicas positivas. Em contrapartida, cresce a necessidade de mecanismos eficientes para organizar e transformar opiniões dispersas em informações econômicas valiosas. Nesse contexto, os mercados de previsão emergem como infraestrutura fundamental para a economia da informação.
Mercados de previsão: muito além das apostas
Embora muitas vezes confundidos com apostas tradicionais, os mercados de previsão representam uma nova classe de ativos focada na produção de informação. Diferentemente das apostas, onde a casa define probabilidades e lucra com eventuais perdas dos jogadores, esses mercados operam em uma estrutura peer-to-peer onde o preço é definido pela alocação coletiva de capital e reflete a probabilidade implícita de eventos futuros.
Histórico e comprovações acadêmicas
Desde o século XVI, com banqueiros romanos negociando sobre conclaves papais para sintetizar informações políticas, até os mercados eleitorais de Wall Street entre 1868 e 1940, esses mercados já demonstravam capacidade superior a pesquisas tradicionais para prever resultados. Mais recentemente, instituições renomadas como HP, Google e Microsoft os utilizaram para prever riscos operacionais, superando gestores especializados. Nas eleições americanas de 2024, plataformas como Polymarket movimentaram bilhões e acertaram resultados com precisão superior a modelos convencionais.
Fundamentos econômicos e epistemológicos
Teóricos como Galton e Hayek fundamentaram a eficácia dos mercados de previsão, evidenciando que a sabedoria coletiva supera especialistas isolados e que preços refletem conhecimento disperso. Pesquisadores Wolfers e Zitzewitz consolidaram a visão dos preços desses mercados como estimativas probabilísticas dinâmicas, destacando que o debate atual foca no desenho eficiente desses instrumentos, não em sua funcionalidade.
Distinção jurídica e regulatória no Brasil
No Brasil, a legislação recente (Lei nº 14.790/2023) aborda apostas de quota fixa, onde a casa é contraparte e define odds. Entretanto, os mercados de previsão funcionam sob lógica pari-mutuel, sem contraparte estrutural e sem definição de preço pela plataforma, configurando uma infraestrutura neutra. A Resolução CVM 88 apoia contratos de investimento coletivo transparentes e alinhados a critérios objetivos, sendo o modelo pari-mutuel compatível com a regulamentação vigente.
Riscos e oportunidades para o Brasil
Hoje, o país direciona grande parte do capital para plataformas estrangeiras de apostas, exportando dados e crenças dos brasileiros sem reter a inteligência gerada na interpretação dessas informações. Isso resulta na importação de probabilidades processadas e na perda de valor agregado internamente. O desenvolvimento de mercados de previsão domésticos representa uma oportunidade estratégica para transformar expectativas em informação economicamente útil, fortalecendo a economia da informação nacional.
Reflexão final
A questão central não é se o Brasil deve regular os mercados de expectativa, mas sim se vai criar a infraestrutura necessária para produzir informação valiosa dentro do país, evitando a exportação de dados brutos e assegurando o desenvolvimento tecnológico e econômico associado a essa nova classe de ativos.
Arthur Farache é CEO da Hurst Capital
Fonte: brazileconomy.com.br
Fonte: Divulgação
