Com mais de 60 anos de história, o conceito de motel no Brasil passou por uma transformação radical, tornando-se um modelo único e copiado em outros países. Originários dos Estados Unidos na década de 1920 como hospedagens rodoviárias acessíveis, os motéis brasileiros evoluíram para espaços que priorizam a discrição, o design temático e encontros a dois.
Essa mudança de foco impactou a arquitetura, a operação e a cultura popular. Os primeiros estabelecimentos com a configuração que conhecemos surgiram nas décadas de 1960 em São Paulo e no Rio de Janeiro, em plena efervescência da liberação sexual. Percebeu-se a necessidade de locais privados e seguros para casais, dando origem a motéis projetados para alta rotatividade, com garagens privativas e entradas e saídas discretas.
Um arquiteto desempenhou um papel fundamental nessa consolidação, criando corredores de serviço e garagens integradas às suítes, minimizando o contato com funcionários e outros hóspedes e garantindo privacidade e agilidade. Aos poucos, foram adicionados serviços como sauna, hidromassagem, piscina e decoração temática.
O primeiro motel brasileiro surgiu em 1968, em Itaquaquecetuba (SP), durante a ditadura militar. Para contornar uma lei que exigia estadias de no mínimo 24 horas, o proprietário transformou o local em um “clube”, onde os sócios podiam usar os quartos sem caracterizar hospedagem convencional. Essa estratégia legal permitiu o funcionamento do negócio, garantindo privacidade por algumas horas. Essa inovação se tornou padrão, com banheiros e garagens em todos os quartos, além de sauna, piscina e hidromassagem nas suítes.
Apesar do contexto de moralismo, a Embratur, fomentou a construção de hotéis e outros empreendimentos, ajudando a viabilizar os motéis como conhecemos.
Atualmente, o setor estima cerca de 5 mil motéis no Brasil, atendendo aproximadamente 100 milhões de clientes por ano e movimentando cerca de R$ 4 bilhões. A demanda se mantém devido à privacidade oferecida, essencial para muitos casais em busca de romance, fuga da rotina e uma experiência diferenciada.
Embora o Japão possua um grande número de love hotels, o modelo operacional brasileiro, com alta rotatividade, garagem privativa, serviço discreto e suítes temáticas, é considerado uma inovação que foi exportada para outros países, especialmente na Península Ibérica.
A arquitetura dos motéis brasileiros prioriza a garagem privativa, o corredor de serviço e a suíte equipada com hidro, sauna e, em alguns casos, piscina. Essa combinação de elementos é considerada um estudo de caso de cultura urbana.
Há relatos de que, durante a ditadura, militares teriam se tornado sócios de alguns motéis e utilizado esses locais para vigiar opositores, revelando uma faceta sombria da história.
O sucesso dos motéis brasileiros reside na especialização do serviço, no padrão operacional e no estilo que se adequaram à cultura local. A invenção de um modelo de negócios que vende privacidade.