Mounjaro e retinopatia diabética: o que as evidências mais recentes mostram sobre a saúde dos olhos

Divulgação.

Baseado nas evidências científicas mais recentes, o especialista esclarece a relação entre a tirzepatida e a retinopatia diabética

 

Nos últimos meses, a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, deixou de ser assunto restrito aos consultórios médicos para se tornar um dos medicamentos mais comentados do país. Inicialmente indicada para o tratamento do diabetes tipo 2 e, mais recentemente, aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o controle crônico do peso em adultos com obesidade ou sobrepeso associado a comorbidades, ela representa um importante avanço no tratamento de doenças metabólicas que afetam milhões de brasileiros.

Segundo a Federação Internacional de Diabetes (IDF), aproximadamente 589 milhões de adultos vivem com diabetes no mundo, número que deve ultrapassar 850 milhões até 2050. O Brasil está entre os países com maior número de pessoas convivendo com a doença, o que torna natural o crescente interesse por terapias capazes de controlar melhor a glicemia e promover perda de peso. Mas, junto com esse avanço, surgiu uma dúvida frequente entre pacientes: afinal, o Mounjaro pode prejudicar a visão de quem já apresenta retinopatia diabética?

A resposta que a ciência oferece hoje é tranquilizadora, mas acompanhada de um importante alerta. A retinopatia diabética é uma das principais complicações do diabetes e ocorre quando o excesso de glicose danifica os pequenos vasos sanguíneos da retina, estrutura responsável pela formação das imagens. Sem diagnóstico e tratamento adequados, a doença pode evoluir silenciosamente até provocar perda importante da visão e, em casos mais graves, cegueira.

Durante algum tempo, existiu a preocupação de que medicamentos da classe dos agonistas dos receptores de GLP-1 pudessem acelerar a progressão da retinopatia. Essa hipótese surgiu principalmente após estudos envolvendo a semaglutida. Entretanto, as pesquisas mais recentes envolvendo a tirzepatida apresentam resultados bastante diferentes.

Estudos publicados em 2026, acompanhando pacientes com diabetes tipo 2 considerados de alto risco, demonstraram que o uso da tirzepatida não aumentou a progressão da retinopatia quando comparado a outros tratamentos para o diabetes. Além disso, pesquisas publicadas na revista científica Ophthalmology sugerem que o medicamento pode até estar associado a um menor risco de desenvolvimento ou agravamento da doença, reduzindo também a necessidade de tratamentos como aplicações intraoculares e fotocoagulação a laser.

Esses resultados reforçam que o medicamento, por si só, não representa uma ameaça à retina. Pelo contrário, o bom controle glicêmico continua sendo um dos principais fatores para reduzir as complicações do diabetes ao longo do tempo.

Isso, porém, não significa que todo paciente possa iniciar o tratamento sem acompanhamento oftalmológico. Existe um fenômeno já conhecido na medicina chamado “piora precoce da retinopatia diabética”. Ele pode acontecer sempre que a glicemia sofre uma redução muito rápida, seja com insulina, seja com outros medicamentos altamente eficazes no controle do diabetes. Nesses casos, uma retina que já estava comprometida pode apresentar uma piora temporária antes da estabilização do quadro. Não se trata de um efeito exclusivo da tirzepatida, mas de uma resposta fisiológica descrita há décadas na literatura médica.

Na prática clínica, esse é o principal ponto de atenção. Muitos pacientes chegam ao consultório motivados pelos benefícios do medicamento para o controle do diabetes ou para a perda de peso, mas iniciam o tratamento sem uma avaliação prévia da retina. Para quem convive há muitos anos com diabetes ou já apresenta algum grau de retinopatia, esse exame é fundamental.

Na minha experiência como especialista em retina, vítreo e catarata, a principal orientação continua sendo a prevenção. Antes de iniciar a tirzepatida, o paciente deve realizar um exame de fundo de olho para identificar possíveis alterações já existentes. Se houver retinopatia, ela deve ser acompanhada durante os primeiros meses de tratamento, período em que normalmente ocorre a redução mais intensa da glicemia. Na grande maioria dos casos, esse acompanhamento é suficiente para garantir segurança durante o uso do medicamento.

Também é importante que o paciente conheça os sinais que merecem avaliação imediata. O surgimento de moscas volantes, flashes luminosos, visão embaçada que piora rapidamente, perda parcial do campo visual ou qualquer alteração importante da visão deve motivar uma consulta oftalmológica sem demora. Embora essas situações sejam pouco frequentes, o diagnóstico precoce continua sendo decisivo para preservar a visão.

Outro aspecto que merece atenção é a forma como esse medicamento vem sendo adquirido. O crescimento da procura por tirzepatida foi acompanhado pelo aumento da venda irregular e da manipulação sem controle sanitário, prática desaconselhada por entidades como a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso). Essas versões não oferecem garantias quanto à pureza, concentração, estabilidade ou esterilidade do produto e podem representar riscos importantes à saúde.

Desde 2025, a Anvisa passou a exigir receita médica em duas vias para a dispensação desses medicamentos, com retenção de uma delas pela farmácia, medida que busca aumentar a segurança dos pacientes e reduzir o comércio irregular.

O Mounjaro representa um dos maiores avanços recentes no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. As evidências científicas mais atuais indicam que seu uso não aumenta o risco de retinopatia diabética no longo prazo e pode, inclusive, contribuir para reduzir complicações oculares ao melhorar o controle metabólico. Ainda assim, nenhum medicamento substitui o acompanhamento médico. Quando endocrinologista e oftalmologista atuam de forma integrada, o paciente ganha mais do que controle da glicemia ou perda de peso. Ganha a oportunidade de preservar a visão, a qualidade de vida e a autonomia por muitos anos.

 

 

Fonte e foto: Assessoria de Imprensa.

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