Reflexões de uma correspondente de guerra sobre a erosão da democracia
A normalização do terror estatal sob Trump e Netanyahu revela a erosão das democracias.
À medida que assistimos às ações de Donald Trump e Benjamin Netanyahu, um padrão alarmante emerge: a normalização de métodos de terror estatal em democracias tradicionais. O que antes era considerado inaceitável torna-se parte do cotidiano, revelando uma erosão dos valores democráticos que uma vez foram tidos como fundamentais.
O contexto histórico e a ascensão do terror estatal
Durante anos, a documentação do terror estatal foi uma parte central do meu trabalho como correspondente de guerra. Em países como a Síria e o Iraque, testemunhei as táticas brutais utilizadas por regimes opressivos para silenciar dissentimentos. A utilização de linguagem como “segurança” e “ordem” permite que governos justifiquem a violência e o controle social, criando um ambiente onde o medo se torna um mecanismo de conformidade. A realidade é que, quando estados democráticos imitam as táticas de regimes tirânicos, eles não apenas perdem a legitimidade, mas também correm o risco de se tornarem mais fracos internamente, minando sua credibilidade global.
As táticas de terror sob um novo disfarce
Recentemente, documentei a detenção arbitrária de ativistas e acadêmicos, onde a liberdade de expressão é sufocada sob a justificativa de segurança nacional. A vigilância sobre estudantes e as ameaças de retaliação profissional contra aqueles que se opõem ao status quo são exemplos claros de como o autoritarismo se infiltra nas instituições democráticas. A linguagem utilizada por esses governos transforma ações claramente repressivas em “necessidades políticas”, um truque retórico que obscurece a brutalidade subjacente.
A consequência da normalização da brutalidade
A erosão da democracia não ocorre de maneira abrupta; é um processo sutil. À medida que as liberdades civis são restringidas e as vozes dissidentes são silenciadas, a sociedade se torna cada vez mais conformista e cínica, onde a autocensura se torna a norma. Essa conformidade é alimentada por um ambiente de medo, onde as pessoas começam a questionar não apenas os outros, mas também a si mesmas, sobre o que podem dizer ou fazer sem sofrer retaliações. O que está em jogo não é apenas a vida de indivíduos, mas a saúde de toda uma sociedade.
Um chamado à ação
Diante desse cenário, é crucial que indivíduos e instituições se mantenham vigilantes e resistam à normalização do terror estatal. A passividade diante de práticas abusivas não é uma opção. Precisamos ouvir as vozes daqueles que sobreviveram a esses regimes e aprender com suas experiências dolorosas. O reconhecimento do que é o terror estatal, não apenas em contextos distantes, mas também no cotidiano de democracias ocidentais, é um passo fundamental para evitar que a história se repita.
Janine di Giovanni é uma correspondente de guerra e diretora do The Reckoning Project, uma unidade dedicada a crimes de guerra em regiões como a Ucrânia, Sudão e Gaza.
Fonte: www.theguardian.com