Artigo Por:
Gustavo Barbosa Camargo1
Jaqueline Pavloski Barbosa Tosin2
Nos últimos dez anos, o número de alunos com transtorno do
espectro autista matriculados nas escolas brasileiras cresceu de forma
exponencial. Em 2015, eram pouco mais de 40 mil estudantes. Em 2024,
esse número ultrapassou 880 mil, segundo dados do Censo Escolar
divulgados pelo Ministério da Educação. Apenas entre 2023 e 2024, o
crescimento foi de 44,4%, chegando a cerca de 920 mil alunos na
educação básica.
Os números ajudam a entender por que a inclusão deixou de ser
uma pauta pontual para se tornar parte central da rotina escolar. Hoje,
mais de 90% dos alunos com autismo estão matriculados em classes
comuns, em escolas regulares. Isso significa que a inclusão não
acontece mais em espaços paralelos ou excepcionais: ela acontece
todos os dias, dentro da sala de aula, no planejamento pedagógico, na
relação com as famílias e na organização da escola como um todo
Esse avanço representa uma conquista importante do ponto de
vista do acesso à educação. Ao mesmo tempo, ele escancara um
desafio que muitas escolas e famílias têm vivido na prática: a matrícula
acontece, mas o preparo nem sempre acompanha na mesma
velocidade. E é justamente nesse intervalo entre o que a lei garante e o
que a escola consegue oferecer que surgem tensões, frustrações e
conflitos.
1Advogado especialista em Direito Educacional.Mestrando em Direitos Fundamentais
do Centro UniversitátioAutonômo do Brasil – UniBrasil. Pós-Graduado em Advocacia
Digital e Proteção de Dados pelo UNICURITIBA. Pós-Graduado em DPO e Gestão
Empresarial pela Universidade Positivo. Pós-Graduado em Inclusão e Direitos da Pessoa
com Deficiência pelo CBI of Miami. Especialista em Contratos Empresariais.
2 Advogada. Pós-Graduada em Perícia Criminal e Processo Civil.
A chegada cada vez maior de alunos com autismo às escolas
não traz apenas novos desafios pedagógicos. Ela transforma a
dinâmica da instituição como um todo. Professores precisam lidar com
demandas para as quais nem sempre foram formados. Gestores se
veem diante de expectativas elevadas, muitas vezes sem o suporte
técnico necessário. Famílias, por sua vez, chegam à escola carregando
esperança, receio e, não raro, experiências anteriores de exclusão.
Nesse cenário, é comum que surja um desencontro de
expectativas. Para muitas famílias, a inclusão representa a promessa de
que o filho será acolhido, respeitado e terá garantidas as condições
para aprender e se desenvolver. Para a escola, a inclusão passa a ser
mais uma responsabilidade somada a tantas outras, em um cotidiano já
marcado por turmas cheias, múltiplas demandas e limitações estruturais.
Quando essas expectativas não são alinhadas desde o início, o que
deveria ser um processo de construção conjunta acaba se tornando
fonte de tensão.
É nesse ponto que surgem conflitos que vão muito além da sala
de aula. Reclamações, desgastes na relação entre escola e família e,
em alguns casos, a judicialização da inclusão. Embora muitas vezes o
debate se concentre na lei, a experiência prática mostra que esses
conflitos raramente nascem da falta de normas. Eles surgem, quase
sempre, da ausência de organização, diálogo e clareza sobre como a
inclusão será vivida no dia a dia escolar.
A boa vontade, por si só, não sustenta um processo de inclusão.
Professores comprometidos, famílias participativas e gestores sensíveis
são fundamentais, mas insuficientes quando não há uma estrutura que
dê suporte a essas relações. Inclusão exige planejamento, definição de
responsabilidades, fluxos claros de comunicação e estratégias que
façam sentido para a realidade concreta da escola. Sem isso, o
improviso se instala — e o improviso tende a gerar insegurança,
frustração e sobrecarga para todos os envolvidos.
Na prática, escolas que conseguem avançar na inclusão são
aquelas que entendem que ela não se resolve em ações isoladas ou
respostas emergenciais. Elas investem em organização da rotina, em
protocolos que orientam decisões do cotidiano, em espaços de escuta
para professores e famílias e em ajustes contínuos, conforme a realidade
da turma e do aluno. Não se trata de fórmulas prontas, mas de
processos vivos, construídos coletivamente.
Entre a lei e a realidade escolar, existe um caminho possível — e
necessário — que passa pela prática. A legislação estabelece direitos e
diretrizes importantes, mas é no cotidiano da escola que a inclusão
ganha forma. Quando esse cotidiano é pensado com intencionalidade,
clareza e diálogo, a inclusão deixa de ser um campo permanente de
conflito e passa a ser um processo possível, ainda que desafiador.
Falar em inclusão na prática é reconhecer que ela não é simples,
nem linear. É admitir limites, ajustar rotas e construir soluções a partir da
realidade concreta de cada escola. Mais do que cumprir normas, incluir
é criar condições para que alunos, professores, famílias e gestores
possam caminhar juntos, com menos improviso e mais segurança. É
nesse espaço — entre a lei e a vida real da escola — que a inclusão
deixa de ser apenas um ideal e começa, de fato, a acontecer.