Eu sabia exatamente o que estava acontecendo. Reconhecia os critérios, nomeava os sintomas, conhecia o tratamento. E não fiz nada. Por muito tempo, não fiz absolutamente nada.
Essa é a confissão mais difícil que uma médica psiquiatra especializada em burnout pode fazer. E é exatamente por isso que precisa ser feita.
O momento em que o conhecimento não foi suficiente
Eu atendia pacientes com burnout. Orientava sobre limites. Falava sobre a importância do sono, da alimentação, do suporte emocional. Prescrevia, encaminhava, acompanhava. E saía do consultório às 21h, comia qualquer coisa em pé, abria o laptop para responder e-mails e dormia tarde demais para acordar cedo demais no dia seguinte.
Havia um ponto em que o cansaço deixou de ser proporcional à carga de trabalho. Em que eu acordava já exausta. Em que o domingo à tarde, que deveria ser descanso, era na verdade antecipação ansiosa da segunda-feira. Em que eu olhava para a agenda cheia e não sentia nada — nem orgulho, nem motivação, nem satisfação. Só o peso de mais um dia que precisava ser atravessado.
Eu sabia o que era aquilo. E continuei.
O conhecimento médico não protege da negação. Às vezes, ele se torna mais uma camada de defesa — porque você sabe demais para não perceber, e percebe demais para admitir.
O que me impediu de buscar ajuda
O mesmo que impede as minhas pacientes. A sensação de que ainda não era grave o suficiente. A crença de que eu poderia resolver sozinha — afinal, eu sabia o que fazer. O medo do julgamento: o que diriam de uma psiquiatra que precisava de psiquiatra? A culpa de parar quando havia tantas pessoas esperando pela consulta.
E debaixo de tudo isso, algo mais difícil de nomear: eu não sabia quem eu era sem o trabalho. A médica, a especialista, a que resolvia os problemas dos outros — era essa a identidade que eu havia construído inteiramente. Desacelerar parecia desaparecer.
O que mudou quando finalmente parei
Parar não foi uma decisão heroica. Foi uma rendição. O corpo chegou a um ponto em que simplesmente não sustentou mais — e eu tive que ouvir o que havia ignorado por tempo demais.O processo de recuperação foi mais longo e mais complexo do que eu havia dito a qualquer paciente. Porque na teoria, eu sabia os passos. Na prática, precisei aprender o que nenhum livro ensina: como cuidar de mim mesma sem transformar o autocuidado em mais uma tarefa a ser executada com perfeição.
E foi nesse processo — lento, não linear, às vezes doloroso — que a especialista em burnout se tornou a médica que sou hoje. Não apesar da minha própria experiência. Por causa dela.
Eu atendo burnout há anos. Mas foi quando eu mesma adoeci que entendi, de verdade, o que minhas pacientes enfrentam. E esse entendimento mudou tudo — na forma como trato, na forma como escuto e na forma como cuido.
Por Dra. Rochelle Marquetto
Médica psiquiatra com abordagem funcional integrativa, especialista no tratamento de burnout, esgotamento, ansiedade e depressão.
Ao longo da sua trajetória, já acompanhou mais de 6 mil pacientes na jornada para uma saúde mental mais equilibrada e sustentável.