Especialista aponta que transformação atinge tarefas, não profissões, e exige adaptação de empresas e profissionais
O receio de substituição pela inteligência artificial combina fatores reais e percepção distorcida sobre o papel da tecnologia. De um lado, sistemas já automatizam atividades que antes dependiam exclusivamente de pessoas. De outro, a ideia de substituição total ainda é alimentada por desinformação e simplificação do tema. Na prática, o movimento predominante é a substituição de tarefas específicas, especialmente aquelas repetitivas e baseadas em regras, enquanto as profissões passam por adaptação.
No curto prazo, as atividades mais impactadas estão em funções operacionais com alto volume e previsibilidade, como atendimento inicial, suporte administrativo, backoffice, cobrança e triagem de informações. Esses processos, por serem estruturados e dependentes de sistemas, apresentam maior potencial de automação. O padrão indica que quanto maior a repetição e a padronização, maior a capacidade de substituição por soluções de IA.
Segundo Fabio Tiepolo, CEO da StaryaAI, o impacto mais relevante está na redistribuição do trabalho. “A IA transforma funções muito mais do que elimina empregos. Ela assume execução, triagem e análise operacional, enquanto o humano passa a atuar em decisão, supervisão e relacionamento. O resultado são times híbridos, com mais velocidade e consistência na operação”, destaca.
Nesse cenário, profissionais que incorporam a IA ao seu dia a dia tendem a ganhar vantagem competitiva. “A tecnologia não substitui competências, mas amplia produtividade e capacidade de análise. O mercado passa a valorizar quem consegue integrar ferramentas digitais ao trabalho com senso crítico e adaptabilidade. Em contrapartida, a resistência ao uso da tecnologia pode reduzir competitividade individual em um ambiente de transformação acelerada”, explica o especialista.
A mudança também reposiciona as habilidades mais valorizadas. Competências como pensamento estratégico, capacidade de decisão, leitura crítica e responsabilidade ganham destaque à medida que a IA assume tarefas operacionais. O diferencial passa a estar na combinação entre julgamento humano e uso eficiente da tecnologia, especialmente em contextos que exigem interpretação, ética e direcionamento.
“O impacto da inteligência artificial não se limita a uma geração específica, mas afeta principalmente atividades previsíveis e baseadas em processamento de informação. Ainda assim, profissionais em início de carreira enfrentam um desafio adicional: funções tradicionalmente utilizadas como porta de entrada no mercado estão sendo automatizadas, o que exige novas formas de aprendizado e desenvolvimento profissional”, comenta Tiepolo.
Além das mudanças estruturais, o avanço da IA também influencia o comportamento e a saúde mental dos profissionais. Quando mal comunicado, o processo pode gerar ansiedade, insegurança e resistência, fenômeno identificado como “silêncio tecnológico”, em que colaboradores evitam utilizar ferramentas por receio das consequências. Por outro lado, ambientes com comunicação clara tendem a reduzir esse efeito, especialmente quando a tecnologia contribui para diminuir carga operacional e prevenir esgotamento.
“Para se manter relevante, o profissional precisa incorporar a IA como ferramenta de trabalho e não apenas como tendência. Isso envolve desenvolver letramento digital, aprender a utilizar sistemas com eficiência e manter uma rotina de aprendizado contínuo. A adaptação rápida, aliada à capacidade de integrar tecnologia e julgamento humano, tende a ser um dos principais diferenciais no mercado nos próximos anos”, completa o empresário.