Ordem baseada em regras enfrenta desafios maiores que Trump em Davos

Romina Amato/Reuters

A crise do sistema global e as mudanças no poder econômico mundial

A ordem baseada em regras, tema central em Davos 2026, enfrenta desafios estruturais que vão além do impacto de Donald Trump na política internacional.

A ordem baseada em regras, conceito central nas discussões da cúpula de Davos 2026, enfrenta desafios que vão muito além da figura polarizadora de Donald Trump. O presidente americano, conhecido por seu protecionismo e ceticismo em relação a organizações multilaterais, simboliza uma ruptura evidente com os princípios do livre comércio e da cooperação internacional que tradicionalmente sustentam o sistema econômico global.

O legado da ordem liberal pós-Segunda Guerra

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, Estados Unidos e Europa foram arquitetos de uma ordem internacional liberal que consolidou suas posições como potências hegemônicas. Essa estrutura, que inclui instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, garantiu segurança e crescimento econômico por décadas, com o apoio da OTAN e o papel dos EUA como consumidor global.

No entanto, o sistema foi desenhado em um contexto que não reflete mais as dinâmicas econômicas e políticas atuais. Países emergentes como China, Índia e Brasil questionam a legitimidade da governança dessas instituições, que privilegiam os interesses ocidentais e mantêm vetos e nomeações desiguais.

A crise das instituições globais e o comércio internacional

O envelhecimento do arcabouço institucional e a falta de acordos comerciais globais desde a última rodada há mais de 30 anos ilustram a estagnação do multilateralismo. O sistema de liberalização comercial, antes orientado pelos EUA e seus aliados europeus, enfrenta resistência crescente de nações em desenvolvimento que buscam maior justiça e reciprocidade nas negociações.

Além disso, o crescimento econômico desacelerado da Europa, sua dependência da segurança americana e sua incapacidade de acompanhar a inovação dos Estados Unidos fragilizam ainda mais o bloco ocidental diante do avanço da China.

Desafios internos e desigualdade crescente

Internamente, a ordem baseada em regras sofre com o aumento das desigualdades e a erosão da classe média, principalmente nos Estados Unidos, onde a parcela do trabalho no produto nacional está em queda histórica. Esse cenário alimenta a insatisfação social e abre espaço para políticas nacionalistas e protecionistas, como as defendidas por Trump.

Caminhos para uma nova ordem internacional

Construir um sistema internacional funcional requer avanços em várias frentes: crescimento econômico mais rápido e inclusivo, investimentos robustos em infraestrutura pública, ajuda financeira aos países mais vulneráveis para enfrentar a crise climática e uma Europa mais autossuficiente em defesa.

Reformas nas instituições globais são imperativas para refletir a nova geopolítica mundial, incluindo o papel da ONU, da Organização Mundial do Comércio (OMC), além do FMI e do Banco Mundial. Uma redistribuição justa das responsabilidades e direitos pode contribuir para restaurar a confiança e a cooperação internacional.

O futuro após Trump

Embora a saída de Donald Trump da presidência possa suavizar tensões, a crise da ordem baseada em regras é estrutural e exige respostas que transcendem lideranças individuais. Como destacou o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, após Davos 2026, o antigo sistema não retornará da mesma forma, exigindo adaptação às realidades de um mundo multipolar e complexo.

Fonte: www.theguardian.com

Fonte: Romina Amato/Reuters

PUBLICIDADE

VIDEOS

JOCKEY

Relacionadas: