Atualmente, cerca de 100 empresas por mês ingressam com pedidos de recuperação judicial no Brasil; especialistas analisam o quadro e destacam principais erros.

Em um ambiente econômico marcado por juros elevados, crédito mais caro e aumento da pressão sobre o caixa das empresas, o planejamento financeiro deixou de ser apenas uma ferramenta de organização para se tornar um fator decisivo de sobrevivência, especialmente para pequenas e médias empresas. Embora muitas PMEs apresentem crescimento de faturamento, isso nem sempre significa melhora financeira. Na prática, diversos negócios continuam enfrentando dificuldades de caixa, aumento do endividamento e até risco de insolvência mesmo em períodos de expansão comercial.
Para Gustavo Luiz da Silva, Head de FP&A da Trio e especialista em planejamento financeiro corporativo, um dos principais erros dos empresários é acreditar que vender mais, por si só, resolve os problemas financeiros da empresa. “Existe um ditado clássico em finanças corporativas: faturamento é vaidade, lucro é sanidade, mas caixa é realidade. Muitas empresas crescem sem processos maduros e acabam ampliando custos e despesas de forma desordenada. Cria-se a falsa ilusão de que vender mais resolve tudo”, explica.
Segundo ele, o crescimento acelerado sem controle financeiro adequado pode se tornar um risco para a própria operação. “O crescimento consome caixa. Se a empresa não conhece sua Necessidade de Capital de Giro, ela pode literalmente quebrar crescendo. Em setores como varejo digital e fintechs, por exemplo, o descasamento entre pagar fornecedores e receber dos clientes é um dos principais vilões”, afirma.
O erro mais comum das pequenas empresas
Na avaliação do especialista, um dos equívocos mais recorrentes na gestão financeira das PMEs é administrar o negócio apenas olhando o saldo bancário do momento, sem analisar profundamente a rentabilidade da operação. “Muitos empresários precificam seus produtos olhando apenas a concorrência e ignoram a margem de contribuição real. Sem entender detalhadamente custos e despesas variáveis, aumentar as vendas pode significar aumentar o prejuízo operacional”, alerta Silva. Outro problema frequente é a confusão entre caixa disponível e resultado econômico real da empresa. “O empresário olha o dinheiro na conta e acredita que a operação está saudável, mas muitas vezes não existe clareza sobre a rentabilidade efetiva do negócio”, complementa.
Para Gustavo Luiz da Silva, planejamento financeiro eficiente não pode ser tratado como um documento estático criado apenas no início do ano. “Um planejamento inteligente precisa ser dinâmico, preditivo e baseado em cenários. A empresa deve trabalhar com pelo menos três visões: cenário realista, otimista e pessimista”, explica. Segundo o especialista, o grande diferencial está em transformar metas financeiras em metas operacionais claras para todas as áreas da empresa. “Se a meta é aumentar lucro em 10%, o que isso significa para o comercial? Qual é o limite de gastos do marketing? O planejamento financeiro inteligente conecta estratégia com a realidade do caixa diário”, afirma.
Reserva de emergência também vale para empresas
Outro ponto destacado pelo especialista é a importância de criação de reservas financeiras corporativas, algo ainda pouco comum entre as pequenas empresas brasileiras. “O ideal é que a empresa mantenha uma reserva equivalente de três a seis meses dos seus custos fixos operacionais. Esse fundo deve ser tratado como prioridade antes mesmo de distribuição de lucros ou expansão”, orienta Silva .
A profissionalização da gestão financeira também passa pela tecnologia. Sistemas integrados de gestão e automação financeira vêm permitindo que pequenas empresas tenham acesso a controles antes restritos a grandes corporações. “A tecnologia centraliza informações, reduz erros manuais e automatiza processos operacionais. Com dados mais confiáveis e atualizados em tempo real, a gestão financeira deixa de ser apenas operacional e passa a apoiar decisões estratégicas”, explica.
Recuperações judiciais acendem alerta nas empresas
O tema ganha ainda mais relevância em um momento em que o número de empresas em dificuldade financeira cresce no Brasil. Atualmente, cerca de 100 empresas por mês ingressam com pedidos de recuperação judicial no país, refletindo um ambiente de maior pressão econômica, crédito restrito e fragilidade de caixa. Para o advogado Alberto Goldenstein, especialista em Direito Empresarial e sócio-fundador do GMP G&C Advogados Associados, empresas com baixa governança financeira estão entre as mais vulneráveis. “Na prática, muitas crises surgem não apenas pela queda de faturamento, mas pela combinação entre faturamento instável, custo financeiro elevado e ausência de planejamento de caixa. Empresas que crescem rapidamente, mas sem governança, controles internos e estrutura financeira compatível, também podem se tornar mais frágeis”, ressalta.
De acordo com Goldenstein, compliance financeiro, controle de caixa e planejamento estruturado são hoje ferramentas fundamentais na prevenção de crises empresariais. “Empresas organizadas conseguem identificar sinais de deterioração antes que a situação se torne irreversível. O planejamento financeiro deixou de ser apenas uma questão administrativa, ele se tornou uma ferramenta de sobrevivência empresarial”, completa.