Quando o silêncio adoece

Pedro Ernesto Macedo , Dra Simone Ramos

Tem dores que nenhum exame pega.
Não sangram, não gritam, não fazem barulho nenhum.
Mas vão corroendo devagarinho: a autoestima, o afeto, a vontade de viver.
Muitas de nós aprendemos desde cedo a engolir o que sentimos.
A sorrir mesmo exaustas.
A seguir em frente mesmo quando o corpo inteiro pede um tempo.
Na maturidade, esse silêncio pesa ainda mais.
Na menopausa, as mudanças naturais do corpo interferem direto na intimidade, no conforto e na qualidade de vida.
Ardência, ressecamento vaginal, dor na hora da relação, infecções urinárias que voltam toda hora, aquele desconforto constante…
São sintomas comuns da síndrome geniturinária da menopausa — mas que geram uma vergonha enorme em quem passa por eles.
E aí vem o silêncio.
A gente sente, mas não fala.
Não comenta com as amigas.
Evita tocar no assunto com a médica.
E muitas vezes nem consegue dividir com o próprio companheiro.
Como explicar que o corpo mudou?
Como admitir que agora dói?
Como confessar o medo de estar envelhecendo?
Por trás desse silêncio quase sempre tem algo maior:
o receio de não ser mais desejada.
O medo de ser trocada por alguém mais jovem.
A sensação de que admitir isso é admitir uma perda — de juventude, de feminilidade, de valor.
Então, muita mulher escolhe calar.
O resultado não é só no corpo.
É emocional.
É no relacionamento.
A intimidade vai sendo evitada.
O carinho diminui.
As conversas ficam superficiais.
Surge um vazio entre o casal — um espaço silencioso onde antes tinha conexão.
Não porque o amor acabou.
Mas porque faltou conversa.
Enquanto isso, a mulher vai se isolando.
Afasta-se dos amigos, evita encontros.
Sente-se diferente, inadequada, sozinha — mesmo estando acompanhada.
O corpo pede ajuda, mas a vergonha trava o pedido.
Vivemos numa sociedade que idolatra a juventude, mas não ensina a atravessar o amadurecimento com dignidade.
Que fala de liberdade feminina, mas ainda cala o corpo da mulher madura.
Talvez por isso tantas sofram quietas.
Mas silêncio prolongado adoece de verdade.
A boa notícia é que hoje existem tratamentos, caminhos e possibilidades que devolvem conforto, segurança e prazer nessa fase.
O problema é que, enquanto o assunto ficar escondido, muita gente nem sabe que não precisa viver assim.
Falar sobre isso não é fraqueza.
Não é vaidade.
Não é futilidade.
É saúde.
É autoestima.
É direito.
Talvez o primeiro passo para cuidar do corpo seja exatamente quebrar esse silêncio.
Porque envelhecer é inevitável.
Mas sofrer calada é necessário.

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