Saúde do cérebro começa antes da velhice: ciência aponta hábitos que podem ajudar a preservar a cognição

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Atividade física, controle da pressão e do diabetes, vida social e estímulos cognitivos fazem parte de uma estratégia mais ampla para um envelhecimento com autonomia; gerontóloga Thais Bento Lima da Silva explica por que não existe uma única fórmula para proteger o cérebro

 

 

Quando se fala em prevenção e saúde, alimentação equilibrada, atividade física, controle da pressão arterial e exames de rotina costumam aparecer entre as primeiras recomendações. O cérebro, entretanto, muitas vezes só entra nessa lista quando os esquecimentos se tornam frequentes ou quando alguém próximo recebe o diagnóstico de uma doença neurodegenerativa, como o Alzheimer.

Para Thais Bento Lima da Silva, gerontóloga, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) e parceira científica do Método Supera, essa lógica precisa mudar. O cuidado com a cognição não deveria começar somente na terceira idade, porque o próprio envelhecimento é resultado de uma trajetória construída durante toda a vida.

“Envelhecer não é algo que começa quando completamos 60 anos. É um processo contínuo, influenciado pelas condições de saúde, pelo ambiente, pelas oportunidades, pelas experiências e pelos hábitos que acumulamos. Por isso, quando falamos em saúde cerebral, precisamos olhar para todo o curso de vida”, explica Thais.

Pessoas da mesma idade podem apresentar condições muito diferentes de saúde, funcionalidade e desempenho cognitivo. E cognição não é sinônimo apenas de memória. Atenção, linguagem, raciocínio lógico, planejamento e tomada de decisão também fazem parte das habilidades que permitem realizar tarefas cotidianas e manter a independência.

Reserva cognitiva ajuda a entender por que cérebros envelhecem de maneiras diferentes

Um dos conceitos importantes para compreender essa discussão é o de reserva cognitiva. A teoria ganhou força a partir de pesquisas que observaram como algumas pessoas conseguiam preservar determinadas habilidades mentais apesar da presença de alterações cerebrais associadas ao Alzheimer.

Um estudo clássico realizado com freiras acompanhadas durante décadas observou mulheres que chegaram aos 90 e 100 anos mantendo bom desempenho cognitivo. A rotina delas incluía atividades intelectualmente desafiadoras, participação social e atividades voluntárias e religiosas. A reserva cognitiva, portanto, não deve ser entendida simplesmente como uma “poupança de memória”, mas como a capacidade de o cérebro utilizar recursos e estratégias diante das mudanças e adversidades encontradas ao longo da vida.

“Quando falamos em reserva cognitiva, não estamos dizendo que existe um estoque de memória que pode ser guardado para o futuro. Estamos falando da capacidade de o cérebro utilizar diferentes estratégias e recursos. Uma trajetória com aprendizagem, desafios cognitivos e participação social pode contribuir para essa construção”, afirma Thais.

Até 45% dos casos de demência poderiam ser prevenidos ou adiados em nível populacional

Nos últimos anos, novas evidências ampliaram a discussão sobre os fatores relacionados ao risco de demência. Em 2024, a Comissão The Lancet reuniu 14 fatores potencialmente modificáveis, entre eles escolaridade, perda auditiva, hipertensão, diabetes, tabagismo, inatividade física, isolamento social, colesterol LDL elevado, perda visual não tratada e poluição do ar.

A comissão estimou que aproximadamente 45% dos casos de demência poderiam ser prevenidos ou adiados em nível populacional caso esses fatores fossem evitados. O dado, no entanto, não significa que seja possível garantir individualmente que alguém não desenvolverá uma demência.

“É importante interpretar essa informação corretamente. Não existe uma receita capaz de impedir o Alzheimer ou qualquer outra demência. O que as evidências mostram é que existem fatores sobre os quais podemos atuar e que o cuidado com a saúde cerebral precisa ser pensado de maneira ampla, sem criar a falsa ideia de que tudo depende exclusivamente das escolhas individuais”, ressalta a gerontóloga.

A relação entre coração e cérebro é um exemplo. Pesquisas já relacionaram fatores cardiovasculares e metabólicos a mudanças no desempenho cognitivo, enquanto as recomendações atuais incluem controle da hipertensão, diabetes e colesterol, prática de atividade física, alimentação adequada, abandono do tabagismo e redução do consumo nocivo de álcool entre as medidas relacionadas à redução do risco de declínio cognitivo.

Exercitar o cérebro não é apenas fazer palavras cruzadas

Outro ponto que costuma gerar confusão é o significado de estimulação cognitiva. Jogos e exercícios de memória podem fazer parte da rotina, mas não são as únicas maneiras de desafiar o cérebro. Aprender uma habilidade, ler, utilizar uma nova tecnologia, participar de atividades culturais, conversar, ensinar outra pessoa, planejar tarefas e resolver situações cotidianas também mobilizam diferentes funções cognitivas.

“Nosso cérebro precisa lidar com novidade, aprendizagem e situações que mobilizem diferentes habilidades. Isso pode acontecer quando aprendemos algo, planejamos uma atividade, conversamos, ensinamos ou precisamos resolver um problema. O mais importante é compreender que saúde cerebral não se resume a uma atividade isolada”, explica Thais.

Além dos estímulos intelectuais, a participação social ocupa espaço importante nessa estratégia. Manter vínculos, continuar participando de atividades e encontrar oportunidades de interação ajuda a colocar diferentes habilidades cognitivas em funcionamento e, ao mesmo tempo, contribui para uma vida com maior participação e autonomia.

Estudo com idosos latino-americanos reforça abordagem combinada

Uma evidência recente trouxe essa discussão para mais perto da realidade brasileira. Em 2026, o LatAm-FINGERS, ensaio clínico randomizado publicado no The Lancet, avaliou idosos de 12 países da América Latina. A intervenção combinou atividade física, acompanhamento nutricional e cardiovascular e treino cognitivo, considerando características culturais da região.

Ao longo de dois anos, os participantes submetidos à intervenção estruturada apresentaram resultados cognitivos mais favoráveis quando comparados àqueles que receberam orientações de saúde de maneira mais flexível. O próprio estudo, entretanto, exige uma distinção importante: foram encontrados benefícios no desempenho cognitivo, e não uma comprovação de que a intervenção tenha impedido o desenvolvimento de demência.

“Esse resultado é importante porque temos populações latino-americanas historicamente menos representadas nos grandes estudos de prevenção. Ao mesmo tempo, precisamos comunicar a ciência com responsabilidade. Encontrar benefícios cognitivos não significa afirmar que uma intervenção impede o aparecimento de uma demência”, destaca a especialista.

Para Thais, a principal mensagem é substituir a busca por uma fórmula milagrosa por uma visão de longo prazo. O objetivo de cuidar do cérebro não é impedir o envelhecimento, mas favorecer condições para que as pessoas possam preservar autonomia, participação social e qualidade de vida durante o maior tempo possível.

“Cuidar da saúde cerebral significa pensar no que podemos construir hoje para o nosso envelhecimento. Movimento, saúde cardiovascular, aprendizagem, vínculos sociais, estímulo cognitivo e acesso à saúde fazem parte desse processo. O cérebro envelhece, mas continua capaz de aprender, se adaptar e se desenvolver ao longo da vida”, conclui Thais Bento Lima da Silva.

 

 

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Fonte e foto: Assessoria de Imprensa.

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