Por Prof. Dr. Carlos Machado | Nefrologia e Clínica Geral
O Brasil possui hoje mais de 150 mil pacientes em hemodiálise — e esse número cresce a cada ano. O que assusta não é apenas a quantidade, mas quem está chegando às máquinas: adultos jovens, adolescentes e até crianças, com rins destruídos por doenças que eram tratáveis, diagnosticáveis — e que ninguém diagnosticou a tempo. A falência renal no Brasil não é fatalidade. É, em grande parte, a consequência de um sistema que falha no diagnóstico precoce e que, ao longo de anos, interpreta exames de forma equivocada enquanto os rins do paciente se deterioram silenciosamente.
Os rins adoecem em silêncio — e o diagnóstico chega tarde demais
A doença renal crônica é, por definição, silenciosa em seus estágios iniciais. Os rins têm enorme capacidade de compensação: um paciente pode ter perdido 60% da função renal sem sentir nada. Quando os sintomas aparecem — inchaço, cansaço extremo, pressão alta resistente, urina espumosa — a doença frequentemente já está avançada.
O problema se agrava porque o exame mais utilizado para avaliar a função renal — a creatinina sérica — é cronicamente mal interpretado nos consultórios e laboratórios brasileiros. E essa falha de interpretação tem custado, literalmente, rins de pacientes.
O erro da creatinina: confiar na faixa de referência do laboratório
A creatinina é um produto do metabolismo muscular eliminado pelos rins. Quanto pior a função renal, maior o acúmulo de creatinina no sangue. É um marcador simples, barato e amplamente disponível — mas que exige interpretação clínica, não apenas comparação com valores de referência laboratorial.
O erro mais frequente e mais grave: médicos e pacientes aceitam um resultado como “normal” porque está dentro da faixa impressa pelo laboratório — tipicamente 0,6 a 1,2 mg/dL, dependendo do serviço. Essa faixa é estatisticamente derivada de uma população geral e ignora variáveis fundamentais como sexo, massa muscular, idade e peso.
⚠ O QUE A CREATININA DEVERIA INDICAR — E NÃO INDICA NO LAUDO
A creatinina é extremamente importante para avaliar a capacidade de retirar os “lixos”do corpo e um pequeno aumento, 0,3 no seu resultado já representa mais de 80% de destruição dos filtros renais, sem a pessoa sentir nada, silenciosamente os rins estão sofrendo, entupindo com cristais/pedras, ou até sendo destruídos em definitivo. Por isso, os valores ideais são:
Sexo Valor IDEAL (meta clínica) Faixa de referência laboratorial (enganosa)
Mulher até 0,6 mg/dL até 1,1–1,2 mg/dL (referência do lab.)
Homem até 1,0 mg/dL até 1,2–1,3 mg/dL (referência do lab.)
Uma mulher com creatinina de 0,9 mg/dL está dentro da faixa do laboratório — mas pode já ter perdido mais de 80% dos rins, e esse 20%restante só consegue eliminar 50% das toxinas/lixo do corpo. O laudo diz “normal”. O rim está doente. Esse é o erro que leva pessoas à hemodiálise.
A solução para essa limitação existe e está disponível: o cálculo da Taxa de Filtração Glomerular Estimada (TFGe), obtido a partir da creatinina, juntamente com a idade, o sexo e a raça do paciente. A TFGe é o verdadeiro indicador de função renal — e deveria constar obrigatoriamente em todo laudo de creatinina sérica. Em muitos centros ainda não consta.
As causas que ninguém tratou: por que os rins chegam ao limite?
Por trás de cada paciente em hemodiálise há, quase sempre, uma ou mais doenças que estiveram presentes por anos — muitas vezes diagnosticáveis com um simples exame de urina ou de sangue. As causas mais frequentes de falência renal no Brasil revelam um padrão de negligência diagnóstica sistemática:
#Pedra no rim (litíase renal) com tratamento errado, fazer cirurgia para retirar a pedra SEM Tratar a causa
#Hipertensão mal controlada sendo que a meta atual é manter pressão estável em torno de 11×7 ou no máximo 12×8
#Pré-diabetes sem diagnóstico, que deve ser feito precocemente, pois o pré diabetes já está há mais de 10 anos entupindo suas artérias sem você saber
#Diabetes mal controlado
#Ácido úrico elevado sem diagnóstico ou reumatismos, artrose, osteoporose, osteopenia
Jovens e crianças na hemodiálise: o sinal mais grave do diagnóstico tardio
A presença crescente de pacientes jovens — adolescentes e crianças — nas unidades de diálise do Brasil é o sintoma mais doloroso do problema. Glomerulopatias não diagnosticadas, hipertensão arterial secundária ignorada, nefropatia por ácido úrico em jovens obesos com síndrome metabólica, litíase renal recidivante sem investigação: são doenças que deveriam ser identificadas na infância ou adolescência e que chegam ao médico quando o rim já não tem retorno.
Uma criança com hematúria microscópica persistente no exame de urina de rotina pode ter uma glomerulopatia tratável. Investigada precocemente, tem função renal preservada por décadas. Não investigada, chega à diálise antes dos trinta anos.
DADO ALARMANTE mais de 13% da população está com falência renal sem saber:
O Brasil tem uma das maiores taxas de incidência de novos pacientes em diálise da América Latina. A cada ano, aproximadamente 40 mil novos pacientes iniciam tratamento dialítico no país. Uma parcela significativa desses casos poderia ter sido evitada com diagnóstico e tratamento adequados nas fases iniciais da doença.
O que precisa mudar: diagnóstico precoce como política de saúde
A prevenção da falência renal não exige tecnologia de ponta. Exige atenção clínica básica, sistematizada e constante. As medidas são simples e de baixo custo:
* Solicitar creatinina com TFGe calculada — e interpretar o resultado em função do sexo e da massa muscular, não apenas da faixa laboratorial.
* Incluir urina tipo 1 (EAS) em todo check-up anual — proteinúria e hematúria microscópica são sinais precoces de doença renal.
* Rastrear ácido úrico sérico de rotina — especialmente em obesos, hipertensos, pacientes com síndrome metabólica e qualquer paciente com episódio de gota.
* Tratar a hipertensão arterial com metas reais — não aceitar pressão “controlada” com uma única medicação em dose insuficiente.
* Rastrear e tratar o pré-diabetes
* Investigar a causa de cada cólica renal — não apenas tratar a dor e ignorar a litíase.
* Nunca tratar uma crise de gota sem investigar e tratar a hiperuricemia de base.
* Incluir avaliação renal na pediatria e na medicina do adolescente — doenças renais crônicas começam cedo.
Conclusão: o rim que chega à diálise foi abandonado antes
Cada paciente que inicia hemodiálise carrega, na maioria dos casos, uma história de oportunidades perdidas: exames que foram pedidos e mal interpretados, sintomas que foram ignorados, doenças que foram tratadas pela metade. A falência renal raramente acontece da noite para o dia — ela se constrói ao longo de anos de diagnóstico tardio e tratamento insuficiente.
Nenhuma máquina de hemodiálise substitui um rim. Mas um diagnóstico precoce, feito com atenção e com os exames corretos interpretados da maneira correta, pode evitar que o paciente precise da máquina. Essa é a responsabilidade da medicina preventiva — e ela começa pelo próximo exame de rotina.