Em meio ao debate sobre saúde mental no ambiente profissional, espaços fora do escritório acompanham busca por flexibilidade, convivência e novas formas de organizar a rotina
A discussão sobre saúde mental no trabalho ganhou espaço na agenda das empresas e dos profissionais. Em paralelo, mudanças na rotina corporativa, como o avanço do trabalho híbrido e a maior flexibilidade sobre onde realizar determinadas atividades, também modificaram a dinâmica das reuniões. Nesse cenário, cafeterias passaram a integrar encontros profissionais, conversas entre equipes e reuniões que antes ficavam concentradas no escritório.
A discussão ganha relevância durante o Setembro Amarelo, campanha realizada nacionalmente pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM), com foco na conscientização e na valorização da vida. No ambiente profissional, a saúde mental não está relacionada apenas a iniciativas individuais de bem-estar. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta fatores como excesso de carga de trabalho, baixo controle sobre as atividades profissionais, insegurança no emprego, discriminação e desigualdade entre os riscos que podem afetar a saúde mental dos trabalhadores. Segundo a entidade, depressão e ansiedade estão associadas à perda estimada de 12 bilhões de dias de trabalho por ano no mundo, com impacto de aproximadamente US$ 1 trilhão em produtividade.
As transformações na forma de trabalhar também aparecem na maneira como as pessoas escolhem os espaços para conversar profissionalmente. “Nem toda conversa de trabalho precisa acontecer dentro de uma sala de reunião. Com o trabalho híbrido, percebemos uma rotina muito mais flexível, em que as pessoas alternam casa, escritório e outros ambientes ao longo do dia. A cafeteria passou a fazer parte dessa dinâmica por ser um espaço de encontro que permite conversar de uma maneira mais espontânea”, avalia André Henning, cofundador da Go Coffee, uma das maiores redes de cafés especiais do Brasil.
Menos formalidade, mais possibilidades de encontro
Uma conversa entre dois profissionais, uma reunião de alinhamento ou um encontro com um cliente não necessariamente exige a mesma estrutura de uma reunião corporativa tradicional. A flexibilização das jornadas abriu espaço para que diferentes ambientes sejam escolhidos de acordo com o objetivo de cada encontro.Esse movimento não significa que cafeterias substituam escritórios, salas de reunião ou espaços de coworking. Elas passam a atuar como mais uma opção dentro de uma rotina profissional que se tornou menos dependente de um único endereço.
“A cafeteria não substitui o escritório nem deve ter essa pretensão. Ela atende a outro tipo de momento. Existem conversas que pedem uma estrutura formal e outras em que um ambiente mais informal funciona melhor. O que mudou é que o profissional passou a ter mais liberdade para escolher onde determinado encontro faz sentido”, explica o empresário.
Para Henning, essa escolha também está relacionada à maneira como trabalho e vida cotidiana passaram a se misturar em diferentes momentos do dia. “Hoje, uma pessoa pode sair de uma reunião no escritório, encontrar alguém para um café, trabalhar por um período e depois seguir para outro compromisso. A rotina profissional ficou mais fragmentada e móvel. As cafeterias acabaram entrando naturalmente nesse percurso porque já são locais associados a encontros e pausas”, acrescenta.
Café como ponto de encontro
Historicamente associado à socialização, o café também continua presente em diferentes situações profissionais. Expressões como “vamos conversar tomando um café” fazem parte da rotina justamente porque a bebida pode funcionar como elemento de aproximação em encontros pessoais e profissionais.
Com as mudanças no modelo de trabalho, esse hábito ganhou novas configurações. Cafeterias recebem desde encontros rápidos até profissionais que aproveitam intervalos entre compromissos para trabalhar ou conversar.
Na franquia, a evolução dos formatos das unidades acompanha a diversidade dessas ocasiões. Além do conceito de conveniência ligado ao coffee to go, a rede passou a trabalhar também com espaços de maior permanência, que podem incluir lounges e salas de reunião, de acordo com o formato da unidade.
“O café sempre teve esse papel social. Muitas conversas importantes começam com um convite para tomar um café porque existe uma informalidade natural nesse encontro. O que estamos vendo agora é essa característica histórica se adaptar a uma rotina profissional muito mais flexível”, afirma Henning.
Pausa não deve significar improdutividade
Outro ponto que acompanha a discussão sobre saúde mental no trabalho é a relação dos profissionais com as pausas. Em jornadas marcadas por mensagens, reuniões virtuais e diferentes demandas simultâneas, interromper uma atividade por alguns minutos ainda pode ser interpretado de maneira equivocada como falta de produtividade.
Na visão de Henning, as mudanças nas relações profissionais tendem a ampliar a compreensão de que produtividade não deve ser medida apenas pelo tempo ininterrupto diante de uma tarefa. “Durante muito tempo se criou uma associação entre produtividade e estar ocupado o tempo inteiro. Hoje existe uma discussão muito maior sobre qualidade de trabalho, organização da rotina e sustentabilidade dessa produtividade. O café aparece muitas vezes como um marcador desses pequenos intervalos: terminar uma tarefa, levantar, conversar com alguém e depois retomar o dia”, observa.
O executivo ressalta, entretanto, que o cuidado com a saúde mental não pode ser resumido à existência de momentos de pausa ou à escolha de um ambiente mais agradável para trabalhar. “Criar uma cultura profissional saudável exige muito mais do que oferecer benefícios ou incentivar uma pausa para o café. Exige escuta, liderança preparada, condições adequadas de trabalho e respeito aos limites das pessoas. As mudanças de ambiente podem contribuir para uma rotina mais flexível, mas o compromisso com a saúde mental precisa estar na forma como as organizações são geridas”, conclui Henning.