Quando conto que sou estilista, recebo muitas perguntas. Algumas bem entusiasmadas, com admiração sobre a imagem caricata trazida pelo cinema
Acho graça e recebo com carinho essa admiração. É realmente uma profissão que desperta curiosidade por ser menos tradicional e relativamente “nova”. Não vou aprofundar aqui a história da moda e lembrar que ela é muito antiga — afinal, ninguém nunca saiu pelado de casa (pelo menos não de forma intencional).
Selecionei algumas perguntas que gosto de responder. São as que menos recebo.
De onde vêm as ideias?
Sou observadora por natureza. Curiosa sobre comportamento humano, sobre o cotidiano, sobre o que as pessoas fazem quando não estão se apresentando.
Mas a inspiração raramente chega quando estou procurando. Chega quando estou disponível.
Entrei por acaso num ginásio onde aconteciam vários campeonatos de basquete amador simultaneamente. Não estava em busca de nada. Mas aquilo me impactou — o som do hip hop misturado com o apito do juiz, as camisetas de aquecimento usadas por baixo das regatas de jersey, os cabelos trançados, a energia urbana daquele ambiente. Saí de lá com uma coleção na cabeça. Já me inspirei em Gustav Klimt — a forma como retratava as mulheres, as texturas, os pigmentos dourados. Num documentário sobre a origem do skate, quando surfistas californianos sem ondas começaram a deslizar em piscinas vazias. Numa música. Num livro. Numa sessão de análise. Na feira de rua que frequento toda semana. O repertório de um estilista não tem uma fonte. Ele é construído em qualquer lugar — desde que você esteja com os olhos abertos.
Por que as roupas estão tão caras?
Não é uma pergunta rasa — e a resposta também não é. Sim, há oscilações de mercado, variações cambiais, custo de matéria-prima, mão de obra. Isso existe e pesa. Mas tem uma etapa que pouca gente conhece. E se conhecesse, talvez a pergunta não precisasse existir.
Antes de uma peça chegar à arara com etiqueta de preço, ela percorreu uma cadeia longa de desenvolvimento.
Da inspiração vem o esboço. Do esboço, a ficha técnica — o documento que o estilista leva ao modelista para discutirem a viabilidade daquela peça. Porque o papel aceita tudo. Já desenhei uma calça com pala sobre o cós que estava linda no esboço. Sentamos com o modelista e a primeira pergunta foi: onde vai o zíper para a calça passar pelo quadril? Voltamos ao início. Essa calça foi repilotada seis vezes até chegar numa solução viável.
Do modelista, a peça vira moldes — um quebra-cabeça numerado onde cada parte indica com qual será costurada. Esses moldes vão para o cortador, e do cortador para as mãos da costureira piloteira. A costureira piloteira é uma profissional que poucos conhecem pelo nome. Ela domina todas as máquinas — reta, overloque, interlock, caseadeira, passadeira. Ganha mais que a média. Faz sentido.Depois dela, a peça volta ao modelista para avaliação, passa pela passadoria e chega ao estilista para a prova — em modelos vivas. Raramente uma peça é aprovada sem ajustes. Quando não é, volta ao início do ciclo e é repilotada até chegar onde precisa. Tudo isso antes de existir uma única peça para vender.
Por que as roupas da passarela não são as mesmas que vão para a loja?
Porque elas não foram feitas para isso. As roupas da passarela são o coração de uma coleção. Elas existem para apresentar uma ideia, traduzir uma inspiração, contar uma história. Um desfile é pensado como um filme — trilha sonora, cenário, sequência de saídas. Ali é sonho. É arte para apreciar e emocionar. Muitas peças são desenvolvidas exclusivamente para a passarela. Elas carregam o DNA mais puro daquela coleção — sem a mediação do mercado, sem o filtro do que vai ou não vender. Algumas chegam às lojas, em tiragem reduzida. Mas a maioria cumpre seu papel no desfile e fica por ali. O que vai para a arara é a tradução desse sonho para a vida real. Guarda a essência, adapta a forma.
Por que os estilistas se vestem de forma tão básica?
Porque o estilista real — não a imagem caricata amplamente celebrada pelo cinema — é um operário da moda. Ele cria para o outro.
Não é um consumidor ávido. Não está em busca de protagonismo visual. Passa os dias imerso nos bastidores, entre tecidos, moldes, provas e ajustes. O olhar cansa. E quem vive tão próximo do processo precisa de respiro — um guarda-roupa que não exige atenção é parte desse respiro.
Há também algo mais profundo nisso. O estilista treina, ao longo de anos, a habilidade de suspender o próprio gosto para servir uma ideia, um cliente, uma coleção. Vestir-se de forma simples não é descuido. É, muitas vezes, a expressão mais honesta dessa postura. O protagonista nunca foi ele. Sempre foi o que ele cria.
Selecionei algumas perguntas que gosto de responder. São as que menos recebo.
De onde vêm as ideias?
Sou observadora por natureza. Curiosa sobre comportamento humano, sobre o cotidiano, sobre o que as pessoas fazem quando não estão se apresentando.
Mas a inspiração raramente chega quando estou procurando. Chega quando estou disponível.
Entrei por acaso num ginásio onde aconteciam vários campeonatos de basquete amador simultaneamente. Não estava em busca de nada. Mas aquilo me impactou — o som do hip hop misturado com o apito do juiz, as camisetas de aquecimento usadas por baixo das regatas de jersey, os cabelos trançados, a energia urbana daquele ambiente. Saí de lá com uma coleção na cabeça. Já me inspirei em Gustav Klimt — a forma como retratava as mulheres, as texturas, os pigmentos dourados. Num documentário sobre a origem do skate, quando surfistas californianos sem ondas começaram a deslizar em piscinas vazias. Numa música. Num livro. Numa sessão de análise. Na feira de rua que frequento toda semana. O repertório de um estilista não tem uma fonte. Ele é construído em qualquer lugar — desde que você esteja com os olhos abertos.
Por que as roupas estão tão caras?
Não é uma pergunta rasa — e a resposta também não é. Sim, há oscilações de mercado, variações cambiais, custo de matéria-prima, mão de obra. Isso existe e pesa. Mas tem uma etapa que pouca gente conhece. E se conhecesse, talvez a pergunta não precisasse existir.
Antes de uma peça chegar à arara com etiqueta de preço, ela percorreu uma cadeia longa de desenvolvimento.
Da inspiração vem o esboço. Do esboço, a ficha técnica — o documento que o estilista leva ao modelista para discutirem a viabilidade daquela peça. Porque o papel aceita tudo. Já desenhei uma calça com pala sobre o cós que estava linda no esboço. Sentamos com o modelista e a primeira pergunta foi: onde vai o zíper para a calça passar pelo quadril? Voltamos ao início. Essa calça foi repilotada seis vezes até chegar numa solução viável.
Do modelista, a peça vira moldes — um quebra-cabeça numerado onde cada parte indica com qual será costurada. Esses moldes vão para o cortador, e do cortador para as mãos da costureira piloteira. A costureira piloteira é uma profissional que poucos conhecem pelo nome. Ela domina todas as máquinas — reta, overloque, interlock, caseadeira, passadeira. Ganha mais que a média. Faz sentido.Depois dela, a peça volta ao modelista para avaliação, passa pela passadoria e chega ao estilista para a prova — em modelos vivas. Raramente uma peça é aprovada sem ajustes. Quando não é, volta ao início do ciclo e é repilotada até chegar onde precisa. Tudo isso antes de existir uma única peça para vender.
Por que as roupas da passarela não são as mesmas que vão para a loja?
Porque elas não foram feitas para isso. As roupas da passarela são o coração de uma coleção. Elas existem para apresentar uma ideia, traduzir uma inspiração, contar uma história. Um desfile é pensado como um filme — trilha sonora, cenário, sequência de saídas. Ali é sonho. É arte para apreciar e emocionar. Muitas peças são desenvolvidas exclusivamente para a passarela. Elas carregam o DNA mais puro daquela coleção — sem a mediação do mercado, sem o filtro do que vai ou não vender. Algumas chegam às lojas, em tiragem reduzida. Mas a maioria cumpre seu papel no desfile e fica por ali. O que vai para a arara é a tradução desse sonho para a vida real. Guarda a essência, adapta a forma.
Por que os estilistas se vestem de forma tão básica?
Porque o estilista real — não a imagem caricata amplamente celebrada pelo cinema — é um operário da moda. Ele cria para o outro.
Não é um consumidor ávido. Não está em busca de protagonismo visual. Passa os dias imerso nos bastidores, entre tecidos, moldes, provas e ajustes. O olhar cansa. E quem vive tão próximo do processo precisa de respiro — um guarda-roupa que não exige atenção é parte desse respiro.
Há também algo mais profundo nisso. O estilista treina, ao longo de anos, a habilidade de suspender o próprio gosto para servir uma ideia, um cliente, uma coleção. Vestir-se de forma simples não é descuido. É, muitas vezes, a expressão mais honesta dessa postura. O protagonista nunca foi ele. Sempre foi o que ele cria.
Fonte e foto: Assessoria de Imprensa.