Tokenização de ativos: o próximo passo do mercado financeiro tradicional

Representação digital de ativos reais avança no Brasil e ganha tração entre gestoras e infraestrutura de mercado 

 

A tokenização de ativos vem sendo incorporada ao mercado financeiro tradicional como alternativa para modernizar emissão, registro e liquidação de títulos. No Brasil, iniciativas de autorregulação e testes com infraestrutura digital colocam o país entre os protagonistas desse movimento. A tokenização de ativos, também chamada de real-world assets (RWAs), consiste em representar direitos econômicos ou de propriedade — como títulos, fundos, créditos, imóveis ou recebíveis — por meio de tokens registrados em infraestrutura digital programável, geralmente baseada em DLT ou blockchain. Mais do que “colocar um ativo na blockchain”, o processo envolve reestruturar todo o ciclo de vida do ativo, da emissão à liquidação, com regras de transferência, compliance e registro incorporadas ao sistema. 

 

Na prática, o modelo tradicional envolve múltiplos intermediários, liquidação em prazos como D+1 ou D+2 e processos de reconciliação paralelos. Com a tokenização, as regras do ativo podem ser programadas em código, permitindo liquidação quase simultânea entre entrega e pagamento (DvP), maior transparência e possibilidade de fracionamento. Projeções de consultorias internacionais indicam que o mercado de ativos tokenizados pode alcançar trilhões de dólares até 2030, embora ainda represente parcela pequena do sistema financeiro global. De acordo com Cleverson Pereira, head educacional da OnilX, o movimento é menos sobre criptoativos e mais sobre eficiência estrutural. “A tokenização é uma reengenharia do backoffice combinada com novos trilhos de distribuição. O objetivo é reduzir fricções operacionais, ampliar acesso e aumentar a eficiência da liquidação, sem abrir mão de governança e conformidade regulatória”, destaca. 

 

Os casos de uso mais avançados concentram-se em fundos de curto prazo, títulos públicos, crédito privado e operações de colateral. Nesses segmentos, a digitalização tende a gerar ganhos operacionais mais imediatos. No entanto, especialistas alertam que a escalabilidade depende da chamada “perna do dinheiro” — ou seja, da existência de ativos digitais de liquidação confiáveis, como depósitos tokenizados, stablecoins reguladas ou moedas digitais de banco central. “Entre os principais pontos de atenção estão a segurança jurídica sobre a titularidade do ativo, riscos operacionais ligados a contratos inteligentes, interoperabilidade entre plataformas e integração com o ambiente regulado. A tendência, segundo analistas, é que a expansão ocorra em ambientes permissionados, com governança estruturada e auditoria constante”, explica Pereira. 

 

No Brasil, o avanço ocorre de forma coordenada entre mercado e reguladores, ainda que com ajustes relevantes ao longo do caminho. Iniciativas conduzidas por entidades do setor e testes com infraestrutura digital seguem em desenvolvimento, alinhados aos princípios de inovação regulada e Open Finance. No entanto, o projeto do Drex, o real digital brasileiro, passou por uma reavaliação importante no final de 2025, quando o Banco Central decidiu descontinuar a plataforma blockchain utilizada nas fases iniciais de testes. O movimento sinaliza uma etapa de recalibração tecnológica, reforçando que a construção de uma infraestrutura digital de liquidação ainda está em evolução. 

  

Mesmo com esse ajuste, o Brasil continua sendo citado como um dos ambientes mais estruturados para experimentação regulada, o que pode acelerar a adoção institucional nos próximos anos. Para o Pereira, o avanço será gradual. “O próximo passo do mercado financeiro não é substituir toda a infraestrutura existente, mas integrar soluções tokenizadas onde há ganho real de eficiência. O processo começa por ativos mais simples e evolui à medida que padrões e modelos de liquidação se consolidam”, conclui. 

 

 

 

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