Em artigo recente, alertei que o crime organizado brasileiro já não se limita ao binômio narcotráfico e lavagem de dinheiro: busca força e legitimidade institucional por meio da penetração em contratos públicos. Os fatos vêm confirmando o alerta em velocidade preocupante. Em junho de 2026, a operação Última Parada alcançou a terceira empresa de ônibus investigada por infiltração do PCC no transporte coletivo de São Paulo — uma concessionária que recebeu centenas de milhões de reais em subvenções públicas, com mais de uma centena de mandados cumpridos, quase R$ 200 milhões bloqueados e um vereador preso, apontado como integrante da estrutura que controlava a empresa. Eram empresas formalmente regulares, vencedoras de processos legítimos, operando à luz do dia. Por trás delas, a facção.
Enquanto as investigações avançam em São Paulo e em outros estados, Curitiba vive o momento decisivo do seu transporte coletivo. Os contratos assinados em 2010 chegaram e o debate público oscila entre prorrogar os contratos vigentes ou lançar imediatamente uma nova licitação. Não deixa de ser simbólico: o modelo escolhido prevê que a maior concessão da história do município seja disputada em leilão na B3, a bolsa de valores de São Paulo — exatamente o estado onde, operação após operação, se revela a extensão dos tentáculos do PCC sobre o setor de transporte. Licitar agora, com esse pano de fundo, é abrir a possibilidade concreta de que uma empresa vinculada ao crime organizado conquiste, de forma legítima e blindada por contrato, o direito de executar o transporte público da capital paranaense.
O ponto mais sensível está no critério escolhido pela Prefeitura: a menor tarifa, traduzida no maior desconto ofertado no pregão. Para uma empresa idônea, tarifa é equação econômica — custo, risco e retorno. Para uma organização criminosa, esse fator é simplesmente irrelevante. Quem tem por objetivo lavar recursos que já possui não se preocupa com retorno financeiro; preocupa-se com o domínio da execução do serviço, com o controle territorial que ele proporciona e com a ocupação de espaço e força política perante as administrações municipal e estadual. Uma estrutura assim pode ofertar tarifa artificialmente baixa, imbatível para qualquer concorrente legítimo — e o critério que deveria proteger o usuário se converte na porta de entrada do crime. Tratar o serviço público de transporte de Curitiba como mero item de leilão, sem a criação de camadas de compliance agressivo, é flertar com a entrega da capital paranaense no colo do crime organizado paulista.
É por isso que os processos de contratação pública precisam ganhar novas camadas de exigência. Menor preço e melhor serviço, somente, já não garantem que teremos uma empresa idônea. É necessário compliance profundo e due diligence criminal: análise de qualquer vínculo, direto ou indireto, de sócios, controladores, investidores e financiadores com pessoas ou estruturas investigadas — ou já investigadas — por atuação de organizações criminosas; transparência societária real, que alcance os beneficiários finais; e rastreabilidade da origem dos recursos que sustentarão a operação e a renovação de frota. Como escrevi antes, licitar, somente, já não é suficiente.
No atual cenário de Curitiba, há ainda três fatores que não podem ser ignorados: a proximidade das restrições legais do período eleitoral, a urgência da continuidade de um serviço que não pode parar um único dia, e o vencimento absoluto dos contratos em 2026. Somados às investigações em andamento sobre o PCC no setor, esses elementos apontam para o panorama mais adequado e seguro para a gestão municipal: a celebração de um novo contrato de transição, com exigências claras de melhoria da prestação dos serviços à população, modernização de frota e de instalações e ganhos operacionais mensuráveis. Ganha-se, com isso, o tempo necessário para que seja possível elaborar um processo licitatório maduro, dotado dos filtros de integridade capazes de mitigar o risco hoje evidente.
O custo de aguardar e preparar bem uma licitação é infinitamente menor do que o de descobrir, meses depois da assinatura, que a empresa contratada por Curitiba tem como pano de fundo a atuação do crime organizado transnacional — hoje já tratado, em diversas frentes, como narcoterrorismo. São Paulo mostrou o que acontece quando o Estado enxerga apenas planilhas e tarifas. Curitiba tem, neste momento, a rara oportunidade de enxergar antes. Um serviço essencial não é mercadoria de pregão: a pressa em leiloá-lo pode custar exatamente aquilo que a licitação existe para proteger — a idoneidade do serviço público.
Wagner Mesquita – @dpf_mesquita
Consultor em inteligência e segurança pública — Delta Intelligence LLC