Trump e América Latina: entre força e controle estratégico

Análise do papel dos EUA na região sob a liderança de Trump

A política de Trump na América Latina demonstra um retorno ao intervencionismo estratégico dos EUA.

A América Latina voltou ao centro da política externa dos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump, não como uma prioridade de cooperação, mas sim como um espaço de disputa e demonstração de força. Neste segundo mandato, Trump reativa uma lógica histórica, onde o continente é tratado como um “quintal estratégico” a ser controlado em nome da segurança nacional.

A Doutrina Monroe e suas Atualizações

Desde a Doutrina Monroe, proposta em 1823, que estabelecia a oposição à intervenção europeia no continente americano, até o Corolário Roosevelt de 1904, os EUA sempre se reservaram o direito de intervir militar e politicamente quando seus interesses estavam em jogo. A estratégia atual, no entanto, se insere em um novo contexto global, caracterizado por um mundo multipolar com a crescente influência da China e da Rússia na América Latina. A retórica de Trump é mais explícita e agressiva, utilizando o narcotráfico e a imigração como justificativas para ações militares.

Em dezembro de 2025, Trump deixou claro que países envolvidos no tráfico de drogas poderiam ser alvos de ataques militares. “Qualquer um que fabrique isso e venda para o nosso país está sujeito a ataques. Não apenas a Venezuela”, afirmou, evidenciando a disposição dos EUA em usar a força militar para proteger seus interesses.

A Intervenção Militar e os Efeitos Regionais

A situação na Venezuela exemplifica essa nova abordagem. Em janeiro de 2025, uma operação militar resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama, que foram indiciados por crimes relacionados ao tráfico internacional de drogas, sem que provas concretas tivessem sido apresentadas até o momento. Essa intervenção é vista por especialistas como uma atualização da política intervencionista americana, com a nova segurança nacional dos EUA reafirmando a Doutrina Monroe reinterpretada como um “Corolário Trump”.

A Colômbia, tradicional aliada dos EUA, também sofreu as consequências dessa mudança. Trump acusou o presidente Gustavo Petro de liderar o tráfico de drogas e suspendeu subsídios, além de autorizar ataques a embarcações ligadas ao ELN. Apesar de choques diplomáticos, a reaproximação entre os dois líderes sugere que Trump pode alternar entre pressão e diplomacia conforme seus interesses estratégicos mudam.

O Foco em Cuba e a Resposta Brasileira

Cuba é agora um alvo de sanções ainda mais severas. Trump cortou o fornecimento de petróleo e autorizou tarifas contra países que fornecem apoio à ilha, ao mesmo tempo em que expressou abertura para um diálogo, considerando que Cuba está em seus “últimos momentos”. A chancelaria cubana, por sua vez, afirmou estar disposta a cooperar, desde que haja respeito à soberania nacional.

No Brasil, o governo Lula adota uma postura cautelosa. Após tensões, Trump agora elogia o presidente brasileiro como um potencial mediador em iniciativas de paz, enquanto o Planalto evita confrontos diretos sobre a Venezuela e Cuba, preocupando-se com retaliações comerciais.

Implicações Futuras e Vulnerabilidades Regionais

Gustavo Menon, professor de relações internacionais, aponta que o discurso antidrogas é um verniz para uma política de força mais ampla. A fragmentação da América Latina e a falta de mecanismos regionais eficazes agravam a vulnerabilidade dos países frente a ações ilegítimas dos EUA. A situação atual ressalta a necessidade de uma resposta coletiva mais robusta, que ainda parece distante no atual cenário político.

A trajetória política de Trump na América Latina reitera a visão dos EUA como um controlador regional, diante de um panorama global em transformação e de novos desafios estratégicos.

Fonte: www.metropoles.com

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